APELIDOS VULGARES, VOL. 1

- CAPÍTULO 1 -

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– Você que se foda! – e totalmente fora de si, o namorado saiu de casa fazendo questão de bater com ódio, só para desaparecer com o carro nalgum lugar do crepúsculo.

"Eu já tô fodido", o garoto que ficou em casa, a outra metade desse relacionamento, pensou com tristeza, encarando a porta batida, ouvindo o carro se afastar cantando pneus. O garoto ficou parado, de pé, sem saber o que fazer, nem pra onde ir, esperando as lágrimas pararem de rolar nas bochechas pretas – algo que não aconteceria tão cedo.

O garoto sabia onde o namorado guardava a pistola, e por muito mais de alguns instantes visualizou na mente a caminhada arrastada até o cofre no fundo do armário; o peso da arma nas mãos; uma polida no cano usando a barra da camisa mostarda; e, por fim, o tiro de misericórdia para aniquilar a dor física que nascia do coração e que povoava o corpo dele agora.

Mas, como sempre, ele não fez nada além de ficar de pé, parado, chorando em silêncio, rezando para a porta batida reabrir e o namorado voltar com um pedido de desculpas – outra coisa que não aconteceria tão cedo.

Coisa que jamais aconteceria.

Não era a primeira vez que o namorado fugia puto desse jeito – porque não era a primeira vez que o namorado broxava depois de cobrar por sexo que já não acontecia com frequência, com paixão nem prazer.

O ciclo estava tão padronizado que o garoto em casa já sabia quando o dia terminaria em choro: ele já teria faxinado o lar; teria acendido velas ao redor da cama para sinalizar que estava pronto para dar o cu; e o namorado se sentiria pressionado – sem ao menos lembrar que foi o próprio namorado quem exigiu, através de chuvas de sarcasmo e piadas ofensivas, que o garoto em casa não servia para nada além de varrer o chão e acumular poeira na cueca.

O garoto em casa amava o namorado, e mesmo que dar a bunda doesse muito – e o namorado o machucasse ainda mais com investidas violentas, sem perceber o incômodo do parceiro, o garoto tentava mesmo assim.

Só que ainda ouvia as mesmas reclamações: de que não estava disposto para transar o suficiente. Que a magia do relacionamento estava acabando por culpa do garoto, por ele personificar a mãe do namorado – uma mera dona de casa – em vez de um lolito safado sacanagem e gozando pelas paredes.

O namorado deixava de notar que eles eram os únicos naquela casa de dois andares e enorme sacada que alguém tinha que limpar. O namorado não entendia que se o garoto não escovasse a privada, lavasse as roupas ou fizesse comida, ninguém faria. E por mais violento ou injusto que o namorado tivesse se tornado por conta disso, o garoto sabia que o problema não estava em nenhum dos dois; que não havia culpados pela paixão estar dando lugar ao ressentimento e, cada vez mais, ao ódio.

Eles não eram mais compatíveis, mas nenhum dos dois queria encarar uma realidade diferente da que construíram: o namorado precisava do garoto mantendo tudo em ordem como a mãe fez por ele – e o garoto precisava de um namorado.

Assim eles empurravam a vida com a barriga. Vez ou outra com um soco na cara. Mas essas eram coisas que depois de feitas e desculpadas aos prantos, ambos fingiam que nunca aconteceu…

Então mesmo sabendo que o namorado não voltaria hoje, talvez nem no dia seguinte, o garoto ficou de cara para a porta, esperando estar errado. Quinze minutos. Trinta. Cinquenta. Foi e voltou na pistola muitas e muitas vezes na mente, aguardando uma guinada na sorte. Mas nada mudou…

O que restou foi nadar contra a inércia e pingar lágrimas até o quarto para pegar a caixinha de madeira onde guardava o kit de fumos, e apertar um cigarro de maconha – bem gordo.

Teve cuidado para não molhar o papel seda com o choro infinito, mas sentiu uma pontada de orgulho por ao menos dessa vez ter forças para se mexer e não se fixar ao celular numa ligação atrás, em caça pelo namorado: absolutamente offline. Nem mandar mensagem adiantaria: o namorado com certeza o havia bloqueado nas redes sociais e mensageiros instantâneos.

Era assim toda vez e estava virando rotina – e mais que tomar soco na cara e ser chamado de "bichinha dramática", era a agressividade passiva do namorado o que mais magoava o garoto abandonado em casa.

Claro que pensou em largar o relacionamento – quem não pensaria?! Mas para onde esse garoto iria? Para quem pediria abrigo? Não tinha dinheiro, nem ensino médio completo. Não tinha nenhum amigo e nenhuma família, e por mais triste que fosse admitir, aguentar o tranco e continuar tentando acertar as coisas era a opção menos complicada que tinha para enfrentar.

Essa era a realidade dele. Tinha que engolir e fazer o melhor que podia.

A vida sempre foi assim para esse garoto.

Com a maconha apertada, foi acender a tora na sacada. Ergueu a cabeça para o céu rosa e dourado do fim da tarde e desejou ver beleza numa das coisas que ele achava mais bonita: o céu – mas estava impossível ver beleza em existir nesse minuto. E não achou que a maconha teria efeito: estava deprimido, nervoso, a poucos metros de se jogar da sacada… Só que três minutos depois de fumar como se THC fosse oxigênio, o garoto ficou relaxado o suficiente para lembrar de quem ele era. Ainda deprimido. Ainda solitário. Ainda desprezado. Mas se sentiu parte da natureza; do céu; do sol que jazia no horizonte aquarelado de um verão que mal começara…

A fantasia de dar um tiro na cabeça virou o desejo de evaporar nas bordas de um buraco negro e voltar a ser matéria-prima de estrelas; partículas dispersas circulando o ralo cósmico à velocidade da luz, prontas para se integrarem a novos corpos celestes e formar novas galáxias uma vez que os restos de quem esse garoto já foi fossem cuspidos para fora do horizonte de eventos, de onde nem luzes escapavam.

Morrer e não existir deixaram de ser a mesma coisa – e chapado feito papel no meio duma enciclopédia, o garoto teve a certeza de que apesar de parecer que queria morrer, ele não queria que a vida acabasse.

Ele queria sorrir. E queria sentir direito à felicidade. Queria se sentir parte de alguma coisa; ter com quem conversar,;talvez um hobby para desenvolver…

Mas tudo que ele fazia era aguentar calado as trovoadas do namorado por puro e simples medo de não ter o que ele já não tinha: carinho e proteção.

Depois da quarta tragada, tentou olhar o lado bom desse problema: tinha uma casa enorme só pra ele, mesmo que vazia e estéril de boas memórias. Tinha toda maconha que o dinheiro do namorado podia comprar. Tinha todos os vegetais que a fome vegana poderia atiçar. E tinha a oportunidade de ver o sol morrer do lado iluminado do Rio de Janeiro, enquanto a lua nascia do lado oposto, azul-marinho e escuro, acompanhada por pontos cintilantes mais brilhantes que os postes de luz que se acendiam com preguiça na rua comprida no bairro praiano do Recreio dos Bandeirantes – lugar classe média a alta, cheia de gente branca que jamais o aceitaria se ele não fosse o mascote do namorado privilegiado.

E por mais triste que pudesse soar, era o melhor momento da vida dele, se fosse comparar com o que viveu ate ali: fome, abandono, e cocô nas paredes de um casebre sem revestimento no meio do mato.

Esse garoto sabia que a dor que sentia era mesmo enorme, e que a situação era séria o suficiente para se desesperar, mas se ele era bom em alguma coisa, com certeza era na habilidade ímpar de sobreviver a basicamente qualquer coisa.

Era isso o que esse garoto se obrigaria a fazer: sobreviver.

Começaria a meditar, como aquele "Enrique Sem H" indicou num canal do YouTube. Faria exercícios dentro de casa, mesmo que começasse com alongamentos diários de cinco minutos. Tudo para condicionar mental e quimicamente o corpo a se sentir bem e aguentar qualquer tranco no caminho – como bem tinha lido nas dezenas de livros digitais sobre autoajuda e motivação que devorou semana após semana, se preparando para não ser mais pego desprevenido numa situação feia como essa.

Só que agora estava exausto, sem inspiração, sem energia, então começaria amanhã. Por hoje, se condicionaria a transpassar o incômodo colossal da ansiedade gritando na cabeça, se desviando dos desejos de pipocar a própria cara com uma bala, e procrastinaria o tempo até o namorado voltar e, no mínimo, fazer o garoto se sentir seguro na certeza de que o próprio namorado estava seguro, de volta ao lar – pronto para receber o cuidado e amor que poderia mudar as coisas pra melhor.

Ainda chapado depois de fumar o beck, foi para o quarto sem acender as luzes e se jogou na cama, incapaz de dormir. Voltou a chorar compulsivamente, e por horas perdeu as esperanças de que mudar a própria rotina realmente mudaria alguma coisa.

Voltou a se sentir preso numa situação que não tinha potencial para resolver; que não dependia dele; que era obrigação do namorado se tornar alguém melhor para os dois o mais rápido possível – o que também não aconteceria…

Era uma sinuca de bico: se corresse o bicho ia pegar, porque não tinha para onde ir, não tinha como se sustentar, não sabia como fazer nada para valer na sociedade – e a cor extremamente preta da pele dele diminuía fatalmente as chances de competir no mercado de trabalho de um país preconceituoso como o Brasil.

Já se ficasse, o bicho comeria, e era exatamente o que esse garoto estava fazendo nos últimos dois anos: afogando os próprios sonhos e exilando a necessidade de respeito, porque lutar as brigas estúpidas do cotidiano, ser cobrado por sexo por um namorado que nem mais sentia tesão por ele, e terminar um dia ou dois absolutamente isolado do namorado ou de qualquer outro ser humano, era menos pior do que passar por estes mesmos problemas sem teto, com fome, e na rua.

Foram horas na cama desse jeito, soluçando e ruminando soluções continuamente soterradas pela resistência de pensamentos que confirmavam a impotência do garoto em relação à própria vida – e como de uma fase para outra no crescimento dele, prendeu os pés, as mãos e o corpo, em armadilhas montadas especificamente para pessoas da cor dele muito antes de ele nascer.

A arma estava fisicamente mais perto agora, no quarto. A caminhada imaginária da cama ao armário se tornou mais fácil, possível – quase intuitiva e natural.

Só que mais uma vez em milhares, tudo que esse garoto fez com a própria vida foi um monte de nada – e nesse caso, fazer nada e fumar montes de maconha era o que salvava minuto após minuto, esperando por quem o protegesse, sem nem se dar conta disso…


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ENRIQUE 'SEM H' COIMBRA | 2021