APELIDOS VULGARES, VOL. 1

- CAPÍTULO 2 -

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– Ô Japa, traz cerveja aí! A firma tá em falta, meu brother! – um amigo brincou do outro lado sala, muitos metros distante da geladeira colossal da cozinha americana onde Japa se servia de azeitonas fatiadas e bloquinhos de queijo parmesão envelopados em lascas de salame.


Quando Japa voltou com seis long necks de cerveja importada e uma garrafa de vodka debaixo do braço, largou o sorriso sereno que era marca registrada dele, e brincou alto, para todo mundo na festinha ouvir:


– Não sou empregada de ninguém, caralho!


A trupe de sete homens na casa dos trinta anos, e as doze meninas abaixo dos vinte, riram como se estivessem prestando atenção em Japa a todo instante – apesar da música alta e das conversas superficiais e paralelas sobre qualquer coisa que preenchesse o silêncio que todos ali temiam.


Onde Japa estava, com quem estava, o que fazia: tudo era motivo de observação e entretenimento para os amigos, que num grau maior ou menor buscavam pescar um truque ou outro de como o exímio comunicador de ascendência oriental conseguia conquistar todos ao redor com carisma puro – os sorrisos mais sinceros; as piadas mais ácidas; a generosidade tão inocente; fosse lá o que Japa fazia, ele se tornava um ícone entre pessoas secretamente solitárias.


Uma menina de dentes encavalados que os rapazes achavam gostosa para caramba, mas de personalidade esquisita, não tirou os olhos de Japa desde que ele chegou na festinha relâmpago (que os garotos faziam acontecer pelo menos quatro vezes dos sete dias da semana). Japa, esperto, também não tirou os olhos dela, apesar de nunca encará-la diretamente para não dar trela em excesso – e deixá-la querendo mais.


Os amigos de Japa comentavam do desejo de transar com essa garota há mais de dois anos, desde que ela surgiu na tribo pelo convite de outra garota que eles conheciam – mas por alguma razão, ninguém conseguiu ultrapassar os limites da calcinha fio dental que vez ou outra emergia no horizonte da jeans apertadinha dela.


Era por ninguém ter conseguido comê-la em tempo hábil – e por tempo hábil, nos primeiros 30 minutos de desenrolo, quando ela era só uma carinha nova no grupo – que "Dentinho" passou a ser considerada esquisita. Tanto que antes do apelido pegar de vez, ela só era chamada de "Maluca" – sem nunca ter dado sinais de maluquice.


Para Japa, ela parecia prudente, e ele admirava como ela só dizia o que era importante, mantendo a personalidade introspectiva intacta num mar de tubarões que farejavam há quilômetros o cheiro das bocetas próximas.


Mesmo com toda simbologia de macho alfa ao redor dele; de líder dessa matilha de homens crescidos sem nada na cabeça além da vontade de "gozar dentro" – preferencialmente sem camisinha – Japa era sensível o suficiente para perceber outras pessoas sensíveis; e pessoas sensíveis o admiravam mais do que as pessoas óbvias que o cercavam por todos os lados, dos andares acima desse apartamento bem decorado, aos andares de baixo.


Japa tinha comido tantas garotas – de crianças peitudas de doze anos às idosas enxutas na casa dos sessenta – que o sexo em si já não era o que ele mais antecipava ao saber que hoje foderia com certeza a Dentinho. Japa tinha expectativas de ter uma conversa significativa; um alívio para a solidão que ano após ano, desde que completou os malditos vinte e sete, o consumia vivo.


As drogas não o preenchiam como antes – apesar de amá-las com todo coração – e os amigos, quando não em festas ou em situações em que conseguia tolerar conversas banais, também estavam dando no saco. Havia tanta repetição sobre os mesmos "problemas" da vida de meninos ricos e da excessiva obsessão sexual, que Japa não se identificava mais.


Sobre a própria família então, evitava toda ligação sem nexo que podia – do pai, da mãe, das tias e da irmã – como o diabo foge da cruz. "Eu tava longe do celular, não vi a ligação" era a desculpa padrão para as vezes em que não conseguia escapar, nos dias em que a família ligava tantas vezes em sequência, que ou pensariam que Japa tinha morrido, ou veriam a verdade: que ele não queria gastar tempo ouvindo os mesmos "blá, blá, blá" sem poder dizer nada sincero sobre a rotina dissidente que levava sozinho.
 

Mas logo não estaria mais sozinho, e Japa sabia que não precisaria mover um músculo para isso: assim que a tarde acabasse e a noite diminuísse a clareza da timidez, Dentinho viria até ele. Trocariam uma nota ou outra sobre como os homens eram machistas, ele concordaria com tudo que ela teria a dizer, e depois de ser um bom ouvinte, nasceria um silêncio vulnerável ao bote infalível: "Tá a fim de dar uma volta de carro?".


Ela pensaria um pouco, querendo que ele a convencesse, mas Japa apenas aceitaria o desconforto dela, que voltaria para o grupo das meninas, de onde ela saiu. As meninas confirmariam como Japa era bom de cama e um cara legal – porque mais da metade delas já transou com ele e se tornaram amigas do cara – e após outro shot de vodka ela o afastaria de qualquer conversa sem valor entre ele e os amigos para dizer que mudou de ideia.


Eles rodariam de carro até o Arpoador, ele apertaria um beck maneiro, eles fumariam na caminhada escura até um cantinho da pedra sobre o mar, e ele a comeria ali uma, talvez duas vezes. Se ela continuasse tímida, Japa proporia de transarem no carro – coisa que ele gostava ainda mais – e depois de gozar fazendo questão de fazer ela gozar também, voltariam para a socialzinha no apartamento.


Por estar meio bêbada e se sentindo fora de si por ter transado com um rapaz exótico, educado e bonito que quase todas as meninas que ela conhecia já tinham comido, ela não teria coragem de continuar na festa fingindo que não acabou de se apaixonar por Japa; então encontraria uma desculpa do tipo "Tenho prova amanhã cedo", pediria um carro nalgum aplicativo, e voltaria para casa sem parar de pensar que, primeiro: ela não deveria ter transado com um cara que mal só conhecia de festa; e segundo: que ela não deveria estar sentindo carinho por um homem imaturo, de espírito livre.


Só que mesmo assim, nos próximos dias ela ligaria para eles saírem de novo, e Japa aceitaria porque odeia ficar sozinho em casa. Eles transariam mais algumas vezes, até ela confundir a casualidade do sexo com o início de um relacionamento, e então ela passaria a ligar para conversar sobre "eles", o que tornaria os papos nos encontros cada vez menos espontâneos para a necessidade de dinâmica constante na vida entediante dele.


Depois o sexo perderia o tempero e ele passaria a ignorar a presença dela do jeito que fazia com a família – sem nunca, jamais, bloqueá-la nas redes sociais ou coisa do tipo, porque ele acreditava que pessoas, apesar de incômodas, não eram vilões de videogames, e as situações da vida eram mesmo situações da vida.


Daí em algumas semanas ela passaria a odiar o cara por quem estava começando a se apaixonar, falaria mal dele para as amigas, as amigas a confortariam dizendo que Japa é assim mesmo e que ela deveria ser assim também – com qualquer homem, sempre – e após mais semanas de silêncio da parte dela, Japa receberia uma mensagem legal que reacenderia a "amizade" dos dois.


Aí eles transariam mais uma vez ou outra, e depois só se falariam em sociais como essa em que estão agora, onde tudo começou – cheia de gente que já se comeu, e sempre com novas possibilidades para ter quem comer.


Esse não passava de mais um ciclo certeiro na vida de Japa, e ele gostaria de pensar que estava errado – e pensou que esteve tantas outras vezes – mas na prática era bem assim que o trem andava.


Que graça a vida tinha quando tudo parecia pré-planejado dessa forma?

*

Japa tinha acabado de gozar e ainda estava dentro da Dentinho quando atendeu a ligação do melhor amigo:


– Fala, Gaguinho. Qual a boa?


– Sério que você vai atender o telefone agora? – Dentinho indagou, empurrando o pênis desinflado dele para fora dela, para vestir o jeans. Japa pediu um momento a Dentinho com um sorriso gentil e o indicador levantado, para ouvir o amigo, que não parecia nada bem.


– V-vou beber a-a-até morrer, Ja-japa – Gaguinho falou do outro lado, sem parar para respirar: – Na-na-não aguento mais vi-vi-viver com ele! Na-na-não aguento fi-fi-ficar naquela casa tendo que mi-mi-mi-mijar sentado porque ele se inco-co-moda com xixi-xixi no caralho da bo-bo-borda do vaso! Parece que ca-casei com minha ma-ma-mãe! Tô puto! Que-quero acabar de be-be-beber!


Japa quis revirar os olhos pelas reclamações repetidas do melhor amigo, mas o tom desesperado da gagueira o impediu de desprezar qualquer drama romântico que parecia estar rolando. Na verdade, o drama parecia mais que romântico: parecia existencial.


– Onde você tá? Quer companhia? – Japa se apressou para vestir a bermuda e pular para o banco do motorista pedindo desculpas mudas para Dentinho, só mexendo os lábios.


– Que-que-quero que o mundo se foda, ca-ca-ca-cara! Não a-a-aguento mais essa merda! Na-não que-quero voltar pra-pra casa e vou foder com metade do-do mundo se me-me der na te-telha! Geral que-que exploda!


– Gaguinho – Japa usou a voz pacífica para tomar atenção do amigo: – Vai pro meu apê, não fica na rua. Tô perto do Dogão, estava numa festa lá. Chego em casa em vinte minutos.


– Ja-japa, cara, o-o-obrigado por tentar re-re-remediar essa chu-chuva de merda que tá ca-ca-caindo na minha vida, ma-mas a ú-ú-única solução é te-te-terminar com ele e se-seguir com mi-mi-minha vida!


– Gago, fica calmo e vai pra minha casa. Não faz nada de cabeça quente. Evita causar mais dor pra você mesmo e pra ele, mané. Você sabe como as coisas podem piorar se você –


– Quer sa-saber de u-uma coisa? – Gaguinho perguntou sem querer saber: – Foda-se vo-você ta-também, seu merda. Acha que tem so-so-solução pra tudo?! Tu não faz i-i-ideia do que tô vivendo! Tua vida é-é-é mole, só cu-cu-curtição! Vá se foder!


E Gago desligou na cara do melhor amigo. Japa ficou sem reação por alguns segundos, antes de tentar ligar de volta, mas só deu caixa postal. Ficou pensando no porquê de Gago estar tão mais fora de si que o normal, além da impressão que o melhor amigo já estava bêbado ao volante.


Apesar de todas as ofensas, Japa sabia que a agressividade vinha da solidão e do medo de precisar encarar decisões tão grandes sem ao menos saber se queria mesmo tomar essas decisões.


– Tá tudo bem? – Dentinho perguntou do banco do carona, sem parecer bolada. – Deu pra ouvir seu amigo gritando do outro lado. Ele tem depressão?


Japa sacudiu a cabeça, frustrado por não ter uma resposta. Compreensiva, ela pediu:


– Tem como você me deixar no Dogão e caçar o teu amigo? Isso pareceu sério…


– Não vai te incomodar eu ir embora assim, depois da gente ter transado?


Dentinho sorriu, mostrando os dentes encavalados que eram fora do padrão das outras garotas da tribo e maneiros para caramba, iguaizinhos à personalidade dela.
 

– Sabe há quanto tempo não tenho um orgasmo, Japa? – eles gargalharam e ela continuou: – Teu sexo oral foi a melhor coisa que aconteceu na minha semana, que por sinal foi péssima. Não estou nada incomodada; eu tô satisfeita. Vai resolver os problemas com seu amigo. Só eu sei o quanto eu gostaria de ter alguém pra me ajudar a resolver os meus…


– Fico feliz de ter ajudado a resolver pelo menos o problema da sua falta de orgasmo – Japa brincou, dando ignição no carro para deixá-la no apartamento do Dogão. Dentinho não fez nada além de rir, deixando Japa super contente por ter transado com uma menina como ela: única e diferente, que as pessoas interpretavam errado só por ela não ser como os outros queriam.


Pelos dez minutos que levaram até o prédio do Dogão, Japa pensou na possibilidade de nunca mais se sentir solitário se tivesse uma namorada feito ela.


– Vai lá ser um bom amigo, Japonga – ela brincou já do lado de fora, apoiada na janela aberta do motorista.


– Valeu pelo sexo – ele agradeceu.


– Valeu pelo orgasmo – ela retrucou, batendo na porta duas vezes para que Japa pudesse seguir na aventura de encontrar Gago, o melhor amigo bêbado e em crise, onde raios ele estivesse…

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ENRIQUE 'SEM H' COIMBRA | 2021

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