APELIDOS VULGARES, VOL. 1

- CAPÍTULO 3 -

Livro 'Apelidos Vulgares, Vol. 1, Capitulo 3' por Enrique Coimbra

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No quarto ou quinto beck, depois de horas girando na cama em guerra contra a facilidade da ideia de não precisar existir, o garoto solitário ouviu um barulho familiar. Não… era mais que um barulho – era a vibração de um carro estacionando na frente de casa.


Como se afetado por uma descarga elétrica, pulou do colchão num impulso único e correu escada abaixo até a porta, pronto para beijar o namorado e pedir desculpas por… por não ter feito nada, especificamente. Mas o garoto queria paz, e foi atrás dela que desceu as escadas na velocidade dos relâmpagos, repentinamente lúcido, ansioso pelo mesmo carinho que estava pronto para dar.


À porta escancarada, entretanto, não era o namorado. Era uma pessoa que o garoto mal gostava e que, honestamente, queria mandar se foder, só para que sumisse de vista:


– Japa – o garoto saudou, transbordando decepção que não passou despercebida pelo visitante. O garoto se apressou para explicar, torcendo para que Japa fosse embora ao saber: – Gago não tá aqui.


– É, tô sabendo, por isso eu vim – Japa disse, cauteloso. – Você não tá legal. Posso entrar?


O garoto quis dizer "Não! Vá embora! Me deixe sozinho!", mas deu de ombros porque não queria ficar sozinho de verdade, e abandonou a porta aberta numa resposta afirmativa à pergunta, seguindo para o sofá em sequência, onde se jogou na ilustração abissal de uma pessoa viva, mas sem vida.


– Não quero ser intrometido, mas o Gago me ligou dizendo que – Japa se interrompeu para tomar cuidado com o que diria. Estava preocupado e achava importante dividir com o namorado do melhor amigo o que tinha ouvido ao telefone, mas o garoto jogado no sofá não parecia nada melhor que Gago, então Japa tentou de novo: – Seu namorado parecia mal.


– "Seu namorado"... – o garoto no sofá repetiu devagar, reflexivo, e concluiu: – Não sei se me importo sobre como ele estava ao telefone contigo, Japa. Era pra mim que ele tinha que ligar.


– Você tá certo – Japa concordou: – Ele deveria ter ligado pra você, não pra mim.


Os olhos do garoto voltaram a lacrimejar, mas ele não queria chorar na frente do Japa, então se levantou para dar as costas para o melhor amigo do namorado e se esconder na sacada, mascarando o rosto com a noite.


– Não vou insistir se não quiser falar do Gago, mas posso saber como você tá? – Japa tentou de novo, pensando num jeito de tirar o garoto daquele buraco. Não sabia o porquê de se importar com o que parecia ser mais uma briga do casal que um dia foi o mais brilhante que Japa já viu, mas não tinha como não se importar com o garoto abandonado naquela casa, chorando sem fazer barulho. Japa se importava com Gago, claro, e a ligação tinha sido mesmo esquisita. Só que esse comportamento dramático era padrão do Gago de tempos em tempos.


Já o garoto disfarçando o pranto na varanda do segundo andar? Aquele nunca pediu socorro, e era de partir o coração como estava óbvio que era o garoto quem mais precisava de ajuda.


– Pretinho… sei que não sou sua pessoa preferida, mas não tem razão pra você se privar de um desabafo, nem que seja pra xingar o Gago, valeu? Não vou contar pra ele nem pra ninguém – Japa se aproximou do garoto pelas costas, sem ficar lado a lado para respeitar o choro que o garoto se esforçava tanto para esconder. Japa não conseguia se sentir bem-vindo quando o casal estava bem, e menos ainda quando estavam brigados, mas não conseguiria deixar o garoto sozinho sem tentar ultrapassar a barreira dessa terrível solidão.


– Posso te pedir uma coisa? – o garoto indagou, ainda de costas.


– Pode. O que quiser – Japa se abriu, inflando a esperança de poder fazer algo.


– Não me chame de Pretinho. Me chama de Preto, de Idiota, de Moleque. Pretinho não.


E Japa concordou.


No silêncio longo e subsequente, com Japa prestes a voltar para o carro e retomar a busca pelo melhor amigo, o garoto irrompeu em palavras tão mansas e tão intensas, que não teve como esconder a dor, nem as lágrimas, nem as melecas, enquanto desabafava:


– É o Gago quem me chama de "pretinho" desde o dia que a gente se conheceu. Até hoje não sei se me chama assim para me diminuir ou porque pensa que é um apelido carinhoso… Até hoje não sei quem ele é, o que ele quer, pra onde ele vai, nem qual o papel que ele acha que tenho na vida dele. Meu próprio namorado me esconde dos amigos e da família, que faz uma coisa pior que me maltratar: fingir que não existo, que Gago não é gay, e que eu e ele não moramos juntos há três anos… Eu limpo casa, lavo cuecas sujas dele, faço comida todos os dias; sou eu quem o lembra de pagar as contas para não cortarem a energia, como fizeram inúmeras vezes, e mesmo que eu sinta que tô tomando conta de uma criança malcriada, sou totalmente apaixonado e dependente desse imbecil… Me ouvindo falar da pessoa que um dia fez de tudo pra conquistar minha atenção, e que hoje foge de casa pra beber depois de me xingar de tudo quanto é nome só porque o pau dele não funciona mais comigo, faz me perguntar: "Por que ainda tô nessa?!". E a resposta acaba sendo: "Porque você não tem pra onde ir, porque você é tão codependente quanto ele, e até um de vocês estourar a própria cabeça, ou a cabeça do outro, com a porra da pistola no armário, esse inferno não vai acabar! Mas aposto que você sabia disso, né, Japa? O Gago corre pra você toda vez que quer zoar, ou quando tem problemas aqui, ou quando só quer se esconder no teu apartamento pra falar mal de mim e fazer sabe-se lá quais putarias o Gago faz quando tá fora da minha vista, não é? Então me diz, Japa: você fazia ideia de que eu sou gente? De que não sou o namorado do seu melhor amigo? Que não mereço ser tratado como ele me trata? Vai sair correndo pra contar pra ele como expus nosso relacionamento íntimo? Como não sirvo pra "tribo" dos amiguinhos de vocês e rir de mim pelas costas? Tô de saco cheio dessa merda. Preciso saber…


Japa ficou tão abalado com a descarga repentina de informações que segurou a respiração até o final do discurso. Preto sabia muito bem quem era o namorado, mas não fazia ideia do papel de Japa nisso tudo: um estepe, igualzinho ao Preto. Até notar que Preto tinha feito perguntas esperando respostas, Japa por fim respirou e deixou escapar um sorriso sem dentes; um sorriso de compreensão:


– Foda-se o Gago, Preto – Japa declarou com sinceridade:– Vamos sair dessa casa.


Preto fez uma careta de confusão:


– Você não ouviu nada do que eu disse? Tô na merda, não tenho pra onde ir e quero respostas. Quero saber o que significo nesse drama todo!


– É justamente por isso que você precisa sair daqui, cara: para respirar. Você não tá preso a esse lugar como acha que está, e nesse minuto você não tá sozinho porque tô oferecendo minha companhia, que não é a companhia ideal, mas que aposto que é melhor do que ruminar um monte de merda sem mais ninguém nesse mausoléu… Pode ficar na minha casa por uns dias se quiser. Você tem pra onde ir, falou? Os benefícios não são só do Gago. Minhas portas estão abertas pra todo mundo, incluindo você.


– É por isso que Gago te venera, Japa. É por isso que sou uma megera: porque comigo ele se sente controlado, podado, e provavelmente tá doido pra transar com meio mundo por aí –


– Preto – Japa interrompeu o garoto para dar ênfase no que diria a seguir: – Que o Gago se foda. É você quem precisa de cuidado agora, você tem que cuidar de você. Felizmente eu posso ajudar – e Japa tirou do bolso dois comprimidos amarelos no formato do rosto do Jair Bolsonaro: – São ecstasy, os melhores da atualidade.


Preto revirou os olhos e quis soltar uma risadinha. Por um milésimo de segundo esqueceu que estava triste. Por um milésimo de segundo sentiu que Japa era mais que o melhor amigo do namorado: Preto sentiu que Japa era amigo dele também, e foi bom não se sentir sozinho no universo, para variar. Isso o fez chorar violentamente:


– Não consigo parar de me sentir triste, Japa – Preto desabafou, se voltando para a noite mais uma vez.


Japa pousou a mão num ombro do garoto e foi veemente:


– Você não vai ficar triste para sempre, e posso garantir que você vai melhorar até o fim da noite se confiar em mim.


As pálpebras encharcadas de Preto se fecharam, como se buscassem na alma um voto de confiança para disponibilizar ao Japa, e ao serem pressionadas, lágrimas desceram numa corrente constante pelas bochechas mais pretas que Japa vira na vida.


Evidente como era difícil para Preto confiar, e Japa não se assombrou: no lugar de Preto, com o que sabia da história do garoto, Japa também viveria em desconfiança. Por isso foi tão gratificante ouvir do garoto uma resposta positiva à mudança:


– Tá bom, o que eu faço? – Preto perguntou, abrindo a palma para receber o ecstasy com a cara de um dos mais polêmicos presidentes do Brasil. Japa não quis que Preto usasse o tempo de explicação para mudar de ideia, então foi breve:


– Põe na boca e engole. Vai levar entre trinta e sessenta minutos pra onda bater, vai depender do seu metabolismo.
 

– Ele é acelerado, meu metabolismo – Preto informou como se estivesse no médico, para o humor de Japa, que riu e continuou, largando um Bolsonaro na mão do garoto:
 

– Então vai levar entre quinze minutos e uma hora. Se quiser que bata mais rápido, ou se quiser se desafiar, pode fazer como eu e colocar a bala debaixo da língua e esperar dissolver.


– O que tem de desafiador nisso? – Preto perguntou, analisando a bala amarela contra a palma escura da mão.
 

– A bala é amarga, muita gente não gosta. Pra mim, quanto mais amarga, mais parece que o efeito bate.


– Efeito placebo – Preto pontuou.


Exatamente – Japa confirmou, achando legal Preto não conseguir deixar de ser nerd, mesmo com tanto sofrimento: – Qualquer coisa pra fazer bem logo, rápido.
 

– Li uma vez que tomar ecstasy afeta a produção de serotonina depois que o efeito passa, podendo piorar pessoas no meu estado. É verdade? Vou ficar preso na onda pra sempre? Isso dá alucinação?
 

– Esqueça tudo que você já leu, tá bom? Você não vai ter alucinações nem ficar viciado. Uma vez só não mata ninguém, e se bobear, vai ajudar a se sentir melhor especialmente depois que o efeito passar. Pelo menos comigo é assim: sinto que no ambiente certo, com as pessoas certas e com um objetivo, quando tem algo que quero resolver, me torno alguém melhor depois de certas drogas. Você vai sentir cansaço físico quando o pico passar, e talvez tenha dificuldade para dormir imediatamente, mas é certo que a tristeza vai desaparecer por horas preciosas, e depois de um bom descanso você não vai só se sentir normal: você vai se sentir novo, diferente. Pra melhor.


Preto suspirou e levantou os olhos para os de Japa pela primeira vez:


– Não sei por que tô confiando em você – Preto foi franco.


– Você não sente que tem opções e tá de saco cheio das que sua cabeça fica oferecendo. Acredite, cara, já estive numa merda parecida. Vamos resolver isso hoje, fechou? Juntos – Japa respondeu, sorrindo.


– No três. Debaixo da língua – Preto falou.


– É você quem manda – Japa confirmou.


– Um. Dois. Três – e tanto Preto quanto Japa colocaram as respectivas balas debaixo da língua: – E agora?


– Agora a gente pega água e gelo, enche a caixa térmica do meu carro, aperta uns becks, e parte pra qualquer lugar. Me diz: pra onde você iria se pudesse estar em qualquer canto da cidade?


Preto não demorou a responder:


– Prainha. Por alguma razão ficar no escuro, cercado por natureza, é um desejo recorrente quando tô na merda desse jeito.


Japa, contente, perguntou pro garoto:


– Tá esperando o quê então? Temos quinze minutos pra sair daqui, vambora!


Com o primeiro sorriso da semana, Preto partiu na frente de Japa secando as lágrimas, acelerado para separar tudo que precisavam com a esperança de sair novo dessa experiência.


Japa, eufórico por mudar a expressão e os sentimentos de Preto antes mesmo do garoto sentir os efeitos da droga, seguiu atrás, pronto para fazer o necessário para se sentir útil, acompanhado, e acompanhando alguém que a cada interação conseguia transformar Japa para melhor como ninguém conseguia – sem ao menos saber que tinha esse efeito.


Sabe o que tornava as coisas absurdamente especiais para Japa dessa vez?


Gago não estava por perto para atrapalhar o que viria depois…