APELIDOS VULGARES, VOL. 1

- CAPÍTULO 4 -

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Efeito placebo ou não, Japa podia enxergar com maior nitidez as ruas escuras pelo para-brisa empoeirado, o que indicava que a onda do Bolsonaro Amarelo começara a expandir as pupilas entre as pálpebras apertadas dele.


– Você tá vendo isso? – Preto perguntou, checando as próprias mãos: – As luzes parecem mais… fortes.


"Não é placebo", Japa pensou antes de responder:


– É efeito da bala, tá acontecendo.


– Uau. Me sinto… bem – Preto suspirou, sorrindo: – Obrigado por me convencer, Japa.


– Você ainda não viu nada – Japa pontuou com empolgação, e pediu: – Coloca uma playlist tua pra tocar? Uma daquelas?


– "Daquelas"? Daquelas quais?


Daquelas, das que você ouve no quarto quando vou visitar o Gago e você decide se esconder.


– Dá pra ouvir minhas músicas quando me escondo no quarto? – Preto perguntou, surpreso.


– Dá pra te ouvir cantar, inclusive – Japa confessou e Preto tapou o rosto com as mãos, envergonhado. Japa quis se certificar de que Preto não entenderia errado: – Não fica com vergonha, sua voz é maneira. E suas músicas são incríveis, eu adoro. Mais de uma vez eu quis pedir uma playlist dessas pra você, mas penso que se você quisesse dividir, não se esconderia no quarto para ouvir. Tô errado?


– Não… – Preto disse com pesar e explicou: – Acho que minhas músicas são tudo que restou de mim pra mim, sabe? Quando eu tomava conta dos meus avós, essas músicas eram minhas únicas companhias: eram os amigos que não tive, os psicólogos que não pude pagar, os namorados que eu queria ter… Quando Gago entrou na minha vida, fui deixando as músicas de lado. Não precisava delas porque ele passava vinte e quatro horas do meu lado e a gente fazia tudo junto, tudo que eu sonhava em fazer com alguém e que descontava nas músicas por não ter ninguém antes dele… Quando a gente começou a ter problemas, voltei a me isolar com meus artistas pra me ancorar toda vez que ficava fora de mim. Se ficava puto, ouvia música para me acalmar. Se ficava triste, ouvia música pra lembrar que podia ser feliz de novo. E quando você ia pra lá roubar a atenção do Gago, eu ouvia música para me convencer de que eu não estava sozinho de verdade. Por que tô falando tanto?!


– Outro efeito do ecstasy é a extroversão – Japa adicionou.


– Então esse é teu plano? Me drogar pra saber o que penso de você e roubar minhas músicas?


– Na mosca – Japa brincou, mas falou sério depois: – Não é esse meu plano exatamente. Sempre achei uma pena você se sentir incomodado com minha presença naquela casa, ou perto do Gago. Muitas vezes só fui aguentar o Gago reclamando pra ficar perto de você, sabe? Te acho uma pessoa estranha no melhor sentido. Gosto de como você pensa e de como só fala quando tem coisas importantes pra dizer. Sem saber você me ajudou a ser uma pessoa melhor, e acho que isso começou quando vi o quanto você transformou o Gago numa pessoa melhor. Tu sabe que ele era muito pior antes de você, não sabe?


– Claro que sei – Preto reclamou, mais do que afirmou saber: – Você e o Dogão pontuavam os erros e exageros no passado do Gago como se quisessem se certificar de que eu estar com ele era um erro, e eu não sabia se vocês falavam isso para me assustar e me afastar dele, ou pra me parabenizar por estar ajudando o amigo de vocês a sair da merda…


– Era pra te parabenizar. Gago sempre foi o garoto de ouro do nosso grupo. Nossas mães sempre apontaram pra ele como um modelo pra gente seguir porque ele era loirinho, de olhos claros, parecia ser culto porque lia jornais, e sempre fez tudo que os pais queriam que ele fizesse. Eu, o Dogão e os outros garotos, a gente sabia que era tudo fachada… Gago sempre bebeu mais que todo mundo, mas não como eu bebia, sabe? Ele não ficava bêbado e de boa. Ele bebia e fazia merda, arrumava brigas, se metia em situações que arriscavam a vida dele e a nossa por tabela, e no início da adolescência isso era bem maneiro nele, tá ligado? A gente queria que ele fosse selvagem e nos inspirasse a sair da caixinha que era nossa vida privilegiada e monitorada na zona sul. Ninguém sabia como fingir e ser radical ao mesmo tempo como ele. Mas quando a gente amadureceu, quando a gente teve nossos apartamentos e primeiras namoradas, Gaguinho não conseguiu se desvencilhar desses comportamentos bizarros nem quando sóbrio. E ele só ficava sóbrio quando visitava os pais dele! Nem quando ia pros jantares de Natal na casa dos meus pais ou dos nossos amigos o Gago se esforçava para parecer menos… Gago – Japa esclareceu.


– Gago só "melhorou" depois que começamos a namorar porque queria esconder a verdade de mim.


– Que verdade? – Japa quis saber.


– A de que ele bebe desde os onze anos e nunca conseguiu parar até eu aparecer. Ele me viu como uma oportunidade de receber cuidados e se cuidar, mas assim que nosso relacionamento se tornou banal na cabeça dele, eu virei alguém que o impedia de fazer o que ele queria: beber, zoar, e beber mais. Na cabeça dele, eu sou o culpado por ele ter abandonado o estilo de vida que levava, de bêbado funcional para o bêbado que ele é hoje: disfuncional e autodestrutivo. Gago me culpa por eu ser vegetariano e tentar colocar mais salada nas carnes dele, ao mesmo tempo que me culpa por ele ter se tornado preguiçoso, por ter parado de ir pra academia, e por ter trocado o abdome sarado pelos vinte quilos que carrega na barriga hoje… Ele me culpa por estar envelhecendo antes do tempo, me culpa por não manter contato com os pais, me culpa por não ser feliz como era antes, e por aí vai…


– Sabe o mais estranho? Gago nunca foi feliz até conhecer você – Japa admitiu.


– Só porque me tornei uma obsessão saudável pra ele por um ano lindo. Depois que deixei de ser novidade e fiquei entre as escolhas ruins que ele queria evitar, ao mesmo tempo que queria não evitar, me tornei o alvo de tudo de ruim que ele pôde sentir. E aqui estamos nós…


– Preto… sabendo disso tudo, por que você continua com ele? – Japa perguntou e elucidou: – Sei que você não tem pra onde ir, sei que não tem família nem ninguém que possa te oferecer suporte, mas nesse tempo todo você poderia ter buscado alternativas, certo? Poderia ter procurado trabalho, ter feito novos amigos… O que te impediu?


Preto olhou pra Japa cheio de compreensão, especialmente porque Japa não sabia como era, de fato, ser preto:


– Tu acha mesmo que não tentei? Japa, eu deixei currículos em lojas, floriculturas, restaurantes, até no McDonald's me dispus a trabalhar. Você acha que alguém me ligou de volta?


– Não entendo… Você fala bem, é maneiro pra caramba, inteligente… Por que não ligariam?


– Japa, quando você me conheceu, qual foi a primeira coisa que você notou quando olhou pra mim?


– Tua maturidade e –


– Não, Japa – Preto cortou: – Qual foi a primeira coisa que você viu quando olhou pra mim?


Japa entendeu o objetivo da pergunta, concordando com a cabeça ao dizer:


– Sua cor. Que você é a pessoa mais preta que já vi.


– Eu sei que fui bem nas entrevistas de emprego. Me preparei por semanas, aprendi tudo que podia usando a internet, e ainda assim ninguém me chamou de volta. Seria estúpido da minha parte não suspeitar que num país preconceituoso como o Brasil minha cor não faria diferença pra mal…


Silêncio. E Preto retomou:


– Respondendo sua pergunta, não tô com o Gago até hoje só porque tô morrendo de medo de ficar na rua, ou porque não consigo colocar em prática nenhum plano de fuga que fantasio na cabeça toda vez que a gente briga. Tô com ele porque quero meu namorado de volta. Quero que ele coloque a vida no lugar, e acredito que posso ajudar em alguma coisa, como ajudei antes. Nós dois juntos, em sincronia, poderíamos dominar o mundo na mesma proporção que, enquanto inimigos e brigando, a gente destrói o tecido espaço-tempo da realidade. Você sabe do que tô falando, não sabe? Não é por acreditar nisso que você atende toda vez que ele liga com as mesmas reclamações? Por acreditar nele? E por não conseguir se isolar do que ele precisa pra ficar bem, já que você pode fazer alguma coisa?


– Não sei… Talvez. Acho que só odeio ficar sozinho – Japa ponderou: – E aquela playlist que você tá devendo?


Preto sacou o celular com um sorriso sagaz, e procurando uma playlist, indagou:


– Toquei você num ponto sensível?


– Tocou – Japa se limitou a responder, com a euforia alegre da bala se tornando uma opressão invisível. Japa queria falar dessas coisas com Preto, e ensaiou fazê-lo muitas vezes; pedir conselhos, dividir medos, ter no namorado do melhor amigo alguém para discutir essas coisas. Só que uma vez que tocaram no assunto, Japa congelou. Tinha medo do que isso poderia significar não só para Preto, mas para ele mesmo. Então se calou.


– Tá fazendo um jogo comigo, garoto? – Preto brincou e fez uma nota em voz alta: – É inacreditável como tô me sentindo, Japa. Eu tô fazendo piadas, tô sorrindo! É isso que você e seus amigos sentem quando vão pra rave? Vontade de ser feliz o tempo todo?


– Exatamente – Japa afirmou com os olhos na estrada, onde qualquer vestígio de felicidade desaparecia por trás da cara fechada.


– O que tá rolando, Japa? Fala comigo. Não é justo você entrar numa bad sem me dizer nada sobre você depois de eu ter despejado tanta coisa nos teus ouvidos. Não que eu esteja me culpando, já que você pediu por isso… Me dá um crédito, poxa.


Japa pensou melhor: Preto estava certo. Esse era um ambiente seguro, com uma pessoa ideal. Preto não era como os outros humanos. Ele não julgaria, não mentiria, e qualquer coisa que Japa dividisse morreria entre eles.


Quando Japa abriu a boca para falar, alguém sussurrou pelo estéreo do carro:


"...come through
And let's do
What we do
In our imagination
When…"


Esse alguém repetiu o poema uma, duas, três vezes, antes de Preto pedir por cima da canção:


– Me diz o que você quer dizer, Japa.


Japa tirou os olhos da estrada escura por um segundo e analisou o rosto de Preto: não havia mais o sorriso do ecstasy, mas sim atenção plena para seja lá o que Japa tinha para dizer. Na ampla atmosfera do carro, o tal alguém no rádio repetia o poema por cima da melodia lenta e tranquila, melancólica sem tristeza, sensual sem vulgaridade.


Numa atitude repentina, Japa parou o carro num canto escuro da estrada deserta e tirou as mãos do volante para buscar no porta-luvas um dos becks que Preto apertou antes de saírem de casa.


– Por um momento achei que você fosse dirigir penhasco abaixo – Preto ironizou, sem deixar de estender: – Não que eu esteja reclamando…


– Penhasco abaixo? Que penhasco? – Japa olhou pela lateral do carro, para onde Preto apontava, e só nesse instante se deu conta de que já estavam a poucos quilômetros da Prainha, bem próximos do Mirante do Roncador, situado colina acima.


– Tô muito louco, mané… Nem percebi que a gente tava aqui – e Japa acendeu o baseado, soltando o freio de mão para dirigir por mais vinte segundos, até parar no estacionamento do mirante a céu aberto.


– Por alguma razão isso me preocupa menos do que o fato de você estar fazendo suspense pra responder uma pergunta básica: você tá se sentindo sozinho? É isso? – Preto insistiu, curioso e entusiasmado demais para ser educado.


– Sim, Preto – Japa desligou o motor, os faróis, e abriu a porta do carro para se meter na escuridão plena da noite: – Me sinto sozinho pra caralho.


Preto saiu do carro atrás de Japa, quilômetros distante e acima da orla do bairro, frente às luzes da costa ao léu, iluminando fracamente ondas violentas que tentavam alcançar e extinguir uma humanidade confortável, abrigada nos prédios baixos e caros do calçadão.


– Aqui – Japa passou o beck aceso para Preto, que parou de admirar a paisagem noturna para escanear o rosto de Japa em busca de respostas. Sentindo o olhar de pupilas dilatadas do garoto, Japa continuou a dizer: – Diferente de você, tenho um apartamento; uma família, que apesar de não concordar com minha vida e ter me expulsado de casa, ainda é capaz de me ajudar se eu precisar; tenho um carro e um emprego no mínimo interessante e autônomo, só que raramente me sinto confortável com a vida. Fico pulando de festa em festa, do apartamento de um amigo pra outro, caçando mulher nos aplicativos ou na zoeira, só pra não ter que encarar o vazio que é minha casa. É deprimente voltar pra lá sem ninguém, com um monte de plantas que vivem à beira da morte porque tem dias que esqueço que tenho vidas me esperando pra ter o que comer, e que no final do dia não são importantes pra mim de verdade… Não como as pessoas são importantes pra mim… Sabe o que é pior? Quando tô com as pessoas que procuro tanto quando fico solitário, não me sinto acompanhado de verdade. As conversas são rasas, repetitivas, cada grupo de amigos tá sempre falando dos mesmos assuntos, reclamando das mesmas coisas, e fica difícil não sentir que meu tempo tá sendo desperdiçado só porque acho intolerável passar um dia inteiro comigo mesmo… Crio planos de estudar, de retomar a faculdade, talvez mudar de estado ou país, mas no instante em que meu apartamento começa a se ampliar diante dos meus olhos e o tédio me domina, levanto pra fumar um beck, e quando percebo tô caçando nomes na agenda pra chamar pro bar ao meio-dia. Do nada eu tô no carro a caminho de Copacabana pra beber um monte e fingir ser uma pessoa que não sinto mais que sou, só porque não sei ser outra coisa… Ouvindo teus problemas me critico ainda mais, porque é louco eu ter tudo isso e me sentir tão… infeliz. Acho que tô um pouco infeliz, Preto. Insatisfeito, sei lá. Mas sem o direito de estar, sabe? Reclamando de barriga cheia?


– Você parece faminto, Japa. Não parece estar de barriga cheia – Preto soprou uma nuvem de maconha depois de devolver o beck para Japa, que tragou antes de Preto perguntar: – Aconteceu algo específico pra você começar a sentir falta de mais… substancialidade?


– Aconteceu – Japa disse, sem soltar o fumo por completo, deixando escapar um pouco de fumaça a cada sílaba falada: – Meu melhor amigo começou a namorar uma pessoa foda. A cada dia que meu melhor amigo deixava de ficar comigo para ficar com essa pessoa, eu me perguntava o porquê, até o dia em que conheci essa pessoa e entendi que eu não era nada interessante. Pessoas como eu e Gago aprendemos a parecer interessantes pras pessoas gostarem da gente, porque uma vez que as pessoas gostassem da gente, ficava fácil ter o que a gente quisesse dessas pessoas, e a única coisa que realmente queríamos delas era atenção total. Alguém que previsse nossas necessidades, nossas personalidades, e que nos aceitasse e atendesse por completo. Toda vez que visitava meu amigo e ficava perto do novo amor da vida dele, eu aprendia uma coisa nova sobre mim, ou sobre o que eu também queria na vida, e mais ainda sobre o que eu não queria mais. Passei a querer coisas além da atenção e companhia: eu queria compreensão, saca? Afinidade emocional, ou sei lá como os psicólogos chamariam uma necessidade maluca dessas, de alguém que pudesse ler minha mente e me ajudar a mudar ou melhorar. Ninguém faz isso por mim há duas décadas, Preto. Ninguém a não ser você –


– Japa – Preto interrompeu: – Se você disser que tá apaixonado por mim, vou arrancar sua cabeça fora.


Japa gargalhou e deu um soquinho no ombro de Preto:


– Eu não tô apaixonado por você, cara. Não sexualmente. Mas é fato que há pelo menos três anos, desde que te conheci, eu quero ser teu amigo. Só eu e você, sem o Gago distraindo nossos assuntos com os papos repetidos dele. Por alguma razão, sinto que a gente se daria bem, e essa última hora contigo confirmou minhas suspeitas. Sabe, cresci numa família mais conservadora que cu de freira, e minha irmã mais nova, que dei meu máximo pra proteger do veneno dos meus pais, foi tudo que uma irmã não deveria ser na minha cabeça. Gago virou meu melhor amigo porque, de certa forma, eu sempre soube que ele era gay, e ele meio que fazia o papel que eu queria da minha irmã dentro da minha rotina. Ele era sensível e monstruoso ao mesmo tempo, e acho que não tive a oportunidade de me sentir bem com minha família porque eles odeiam sensibilidade. Descobri que sou sensível também, coisa que só consigo admitir hoje porque você me deu um exemplo melhor do que "ser sensível" significa. É como se você tivesse entrado na vida do Gago pra entrar na minha vida, e eu quero você nela já faz muito tempo, Preto.


– Japa… – Preto, com uma expressão torcida no rosto, parecia reprovar o que Japa dizia, então Japa decidiu continuar falando:


– Eu não estou dando em cima de você –


– Não é isso que eu tô pensando… É que eu não sou tudo isso, Japa. Acho que você tá solitário e precipitado –


– Você tá errado, Preto, e é por isso que tô tomando bala com você em vez de caçar o Gago feito louco pelas ruas do Recreio, valeu? Porque eu precisava de coragem pra ser honesto e dizer o quanto você é foda, e valioso, e o quanto sinto raiva do meu melhor amigo por ele estar se tornando o tipo de pessoa que eu não quero continuar sendo: insensível, cruel e egoísta… Você não merece isso. Nem eu. Nem ele! Mas você merece um amigo, e eu tô aqui pra ser tudo que –


– Japa – Preto interrompeu outra vez, dessa vez olhando para o céu acima deles com o pavor evidente; massivo.


Japa não entendeu a expressão de choque em Preto até olhar para cima e sentir a mesma coisa: três esferas vermelhas, brilhantes e gigantescas, aumentavam de tamanho em velocidade imensurável, como se caindo do firmamento bem em cima de Preto e Japa.


Quando o brilho vermelho dos objetos ficou próximo o suficiente, iluminou o mirante, a estrada e as colinas com escarlate intenso, e as esferas, em formação triangular, se mostraram maiores do que caminhões estacionados no ar, poucas centenas de metros acima dos rapazes.


Ainda mais velozes do que na descida dos céus, os três objetos dispararam na direção do oceano, desaparecendo num piscar de olhos sobre o horizonte negro, levando a luz vermelha e devolvendo o breu para o mirante, para as colinas e a estrada.


– Que… – Japa tentou perguntar para Preto o que foi aquilo, mas as palavras sumiram. Estava agitado por dentro, morrendo de medo e admirado com a beleza do fenômeno, e não conseguiu colocar a cabeça em ordem, tremendo dos cabelos na cabeça às unhas dos pés.


– Objetos voadores não identificados – Preto disse. As lágrimas desciam dos olhos, ainda fixados no horizonte em que o fenômeno desapareceu, enamorados pelas milhões de possibilidades que a vida a partir de agora oferecia para eles: – Você viu isso, não viu, Japa?


– V… vi – Japa balbuciou, perdido.


– Ecstasy não causa alucinações, certo? – Preto perguntou de novo.


– Certo – foi o que Japa conseguiu dizer, também de olho no horizonte.


Então Preto gritou para o céu, até perder o fôlego:


– EU TÔ AQUI! ME LEVEM COM VOCÊS! EU TÔ AQUI! POR FAVOR!


Mas ninguém respondeu. Nenhuma luz surgiu. Nada de novo aconteceu.


– Eu tô aqui… Por favor… – Preto sussurrou. Japa pousou a mão no ombro de Preto, convidando o novo amigo a se virar e olhar Japa nos olhos:


– Não acho que possam te ouvir, cara – Japa disse, de um jeito amável.


Num ímpeto irresistível, Preto puxou o braço de Japa e emendou um abraço para agradecer:


– Valeu por me tirar de casa, Japa. Essa foi a coisa mais foda que vi na vida. Tô feliz por ter testemunhado essa porra contigo.


Apertando Preto num abraço mais forte do que já deu na própria mãe, Japa retribuiu a gratidão:


– Obrigado por mudar minha vida sem saber.


E quando o abraço acabou, eles se olharam com ternura antes de se afastarem, voltando a mapear os céus com o beck aceso e os olhos vidrados na esperança de verem qualquer resquício de mistério ou resposta para o que poderiam ser aquelas coisas voadoras.


Apesar do desejo de conversar causado pelas balas, ninguém disse mais nada. Falar sobre qualquer coisa, das charadas da psiquê aos enigmas do espaço, se tornou pequeno demais diante da experiência de existir em si. Todavia, ambos sorriam como se o fluxo de felicidade universal os atravessasse sem interrupções.


Ficaram nesse estado por horas. Nem quiseram ir à Prainha. Se contentaram em fazer vigília no mirante, à espera de outro sinal que não veio, e quando Preto bocejou pela primeira vez, Japa sugeriu que voltassem para casa.


*


Apesar de Preto ter mantido o silêncio no carro por todo o caminho de volta, Japa não tirou os olhos do amigo, observando o clímax do ecstasy desaparecer em sintomas sutis: maxilar travado, bocejos constantes e pernas nervosas, se sacudindo freneticamente.


Quis perguntar se Preto estava bem, se precisava de alguma coisa, e instruir que antes do organismo se estabilizar, Preto poderia se sentir triste, mas que Japa ficaria ao lado dele até que melhorasse. Inesperadamente, Preto parecia bem, mesmo quando o sorriso branco perdeu potência no semblante negro até se extinguir por completo.


Foi só na esquina da rua em que Preto morava com Gago que a falta de sorriso sinalizou dor, e Preto não ficou em silêncio, apontando para o escuro:


– É o carro do Gago.


Japa viu o que Preto quis mostrar: um veículo aberto, iluminado por dentro feito sinalizador numa ilha remota, apontando a rota de um problemão.


Preto pulou do carro assim que Japa encostou na calçada e correu para apoiar a cabeça do namorado no colo: Gago estava inconsciente no chão, como se tivesse saído do carro para dormir em vez de continuar dirigindo, pouco antes de entrar em coma alcoólico.


O estado deplorável de Gago não era surpresa para Preto ou Japa, mas era a primeira vez que viam Gago num grau tão vulnerável, tão irresponsável, e correndo tanto risco.


– Japa… – Preto chorou o apelido vulgar do amigo, pedindo ajuda sem dizer nenhuma palavra a mais.


– Vai abrindo a casa – Japa guiou: – Vou levar o Gago pra lá no meu carro e depois volto aqui pra pegar o carro dele. Vai ficar tudo bem, Preto. Eu juro.


Preto concordou, confiando absolutamente em Japa, alguém que ele não gostava até o início da noite.


– Me faz um favor? – Japa pediu quando Preto deu as costas para correr na direção da casa: – Tenta não deixar que isso destrua tudo de bom que aconteceu hoje? As naves espaciais? O Bolsonaro Amarelo? Eu e você?


Aos prantos, desesperado por soluções milagrosas, Preto acenou com a cabeça em concordância e acelerou na direção de casa.


Preto não disse nada porque não queria mentir ou alongar o drama, mas a tristeza anulada pelo ecstasy, pela companhia de Japa, e pelas visitas possivelmente extraterrestres, já estava de volta.


Mil vezes mais forte.

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ENRIQUE 'SEM H' COIMBRA | 2021

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