APELIDOS VULGARES, VOL. 1

- CAPÍTULO 5 -

Apelidos Vulgares, Vol. 1, Capitulo 5, E

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Gago abriu os olhos como se chutado da escuridão, despertado subitamente pela sensação de cair da inexistência.

 

Saiu da posição horizontal, deitado, para a vertical, sentado, acompanhado por um pulsar tão constante e doloroso atrás da cabeça que chegava fazer barulho dentro do crânio:


Zum, zum.
Zum, zum.
Zum, zum…


Desorientado, Gago não sabia quem ele era, nem conseguia contemplar o fato de que era alguma coisa e que existir era consequência disso.


Não passava de um corpo vazio.
Ou menos do que isso.


Nem conseguiu entender onde estava – menos ainda que estava em algum lugar! Sabia, só porque podia ver, que girava sem completar um círculo completo, puxado de volta ao ponto de partida do giro feito carrinho de brinquedo, de impulso, arrastado para trás toda vez que chegava num dado ponto da aceleração – só para acelerar do início. De novo.


Indo e voltando.
Indo e voltando.


Zum, zum.
Zum, zum.
Zum, zum…


Nauseado pela discotecagem do cérebro, vomitou nos próprios pés descalços; podres, de tão emporcalhados.


O perfume ligeiramente familiar do ambiente foi sobreposto pelo fedor efervescente de secreções gástricas e cervejas quentes – e por causa disso golfou outra vez: um jato violento e dourado que traçou no chão um caminho pegajoso até a porta, que por sua vez girava e voltava, girava e voltava.


Zum, zum.
Zum, zum.
Zum, zum…


Graças aos refluxos nojentos, o ambiente diminuiu a velocidade dos meio giros, mas não o suficiente para estacionar a vista e evitar que Gago jorrasse o terceiro rio de ácido amarelo e malcheiroso – dessa vez com pequenas placas pretas espumantes… sangue.


Gago comprimiu os olhos e apertou a superfície em que estava sentado num esforço instintivo de interromper o ciclo do carrossel quebrado. De olhos fechados, deu de cara com o fato de que estava sobre uma cama; fato esse que o levou para outra informação importante: de que essa cama era dele – e ele era o Gago.


Lembrou que não morava sozinho, e aquela cama era do namorado também… Preto, se Gago podia recordar bem. “É… isso mesmo”, pensou, “Meu Pretinho”.


Daí foi fácil chegar à verdade nua, crua e fétida de que Gago estava, simplesmente, de ressaca.


O despertar violento de uma inconsciência anestesiada, tão diferente de uma noite rejuvenescedora de sono, era culpa do hábito de beber em excesso, e essas informações vieram sem que Gago precisasse pensar – o que parecia impossível, dada a dor lacerante e inflamada no cocuruto.
 

Ficar de pé na centrífuga do quarto foi difícil e obsceno: espalhou vômito por todo o caminho até o banheiro da suíte, onde jogou todo o peso do corpo sobre a pia para se sustentar, reencontrar equilíbrio, e beber água da torneira mesmo.


Evitou o espelho com a maestria que faltava para se manter longe de problemas, e depois de ligar o chuveiro, sentou nos azulejos reluzentes sob a torrente gelada até o “zum, zum” da cabeça diminuir potência, e os meio giros perderem vigor.


Talvez Gago tivesse cochilado no chuveiro, mas ele não saberia dizer, já que a capacidade de lembrar do passado só era vivida em pequenos intervalos no momento presente – que por conseguinte, se tornava rapidamente um novo passado perdido…


A confiança de que não cairia se tentasse caminhar novamente foi recuperada bem depois que a pele das mãos e dos pés enrugaram – confiança suficiente para se secar na toalha de rosto (coisa que incomodava profundamente o namorado, que dizia coisas como “Você acha normal alguém esfregar a toalha na bunda pra depois você esfregar a cara na mesma toalha de bunda?!”); confiança para evitar as poças amarelas de vômito (sem se incomodar o suficiente para limpá-las, coisa que o namorado provavelmente faria); e aí sim, por último, confiança para sair do quarto, procurar o namorado, e se informar sobre o que aconteceu para Gago ter bebido tanto (porque com certeza havia alguém para culpar por esse descontrole).


Perder a memória – e possivelmente a razão – não era tipo de coisa que Gago fazia por diversão.


Só havia um caminho do quarto à sala: o corredor reto, iluminado abundantemente por luz natural direcionada pela comprida janela à esquerda. Quando não de ressaca, acordar e se arrastar em marcha lenta pelo chão claro e limpo, descalço sobre a resina fria, era uma das coisas que Gago mais gostava de fazer dentro de casa – e só tinha uma oportunidade no dia para isso: os primeiros momentos da manhã, cada vez mais raros…


Do corredor, Gago ouviu Preto rindo na sala – um som rouco, doce, que não ouvia há… quanto tempo mesmo? Gago não sabia.


De todas as coisas que viveu nos últimos minutos (talvez horas; ele não sabia, nem queria saber), ouvir o namorado gargalhando foi a coisa mais anormal para Gago, que reduziu ainda mais a velocidade para não fazer barulho, e espiar do que o namorado estava rindo.


Gago não precisou espiar para saber que o namorado estava rindo com alguém:


– Você manda muito nesse jogo – Gago ouviu Japa comemorar, seguido de uma batida de mãos do tipo que só amigos íntimos fazem quando querem celebrar um acerto. Por isso Gago acelerou em vez de continuar devagar:


– O-o que vocês estão comemorando? – Gago perguntou da esquina do corredor com a sala. Preto, de pé ao lado de Japa, pulou de susto ao se virar para Gago, do outro lado do cômodo.


– Ei… – Preto saudou, sem jeito: – Como você tá se sentindo?


– Um lixo – Gago se queixou, se apoiando pelo ombro na parede.


– Pertinente – Japa murmurou, voltando a ficar de frente para a TV gigantesca sobre o rack de madeira para selecionar uma música no jogo de imitar bonecos coloridos dançando.


– O que aconteceu? E-eu fiz alguma coisa? – o coração de Gago deu uma disparada vertiginosa: Japa estava na casa, meio bolado, jogando Just Dance com Preto no Nintendo Switch, fazendo Preto gargalhar.


Tinha, sim, alguma coisa errada.


Japa pausou o jogo e projetou um olhar de “Falo eu ou fala você?” para Preto, que deu de ombros como quem diz “Deixa que eu falo”, e respondeu:


– A gente tava esperando que você nos contasse o que aconteceu ontem.


– Co-como assim? – Gago encostou as costas na parede, apertando os olhos e deslizando suavemente com até o chão, onde sentou. Preto deu um passo para frente, para assumir a conversa, confortando Japa com trocadas esporádicas de olhares que diziam “Relaxa, eu sei o que tô fazendo”:


– Eu e você brigamos ontem. Você tava com raiva, pegou o carro e sumiu –


– Depois você me ligou dizendo que ia cometer uma loucura – Japa se intrometeu com certa agressividade, ignorando as dicas não verbais de Preto.


– Que isso, Japinha – Gago forçou uma risada, como se não quisesse que Japa ficasse sem graça por contar uma piada tão ruim.


– Tá me dizendo que você realmente não lembra? – Japa forçou a barra, ultrapassando Preto em dois passos na direção de Gago: – Eu e o Preto tivemos que resgatar você da sarjeta, cara. Teu carro tava completamente aberto. Você tava em coma!


Gago soltou outra risada desconcertada: dessa vez porque sabia que podia ser verdade.


– Tá fa-fa-falando sério? – Gago indagou.


Sério-pra-caralho – Japa deu ênfase.


– Japa… – Preto pediu por calma sem dizer, adicionando um toque no braço de Japa, que suspirou para o teto e deu as costas para Gago, caminhando até a porta de vidro que dava para a varanda áurea, cintilando no sol do fim da tarde.


Preto se aproximou e agachou na frente do namorado para perguntar:


– Não lembra de nada? Nada, nada?


Gago sacudiu a cabeça devagar, negativamente, e decidiu se esforçar para lembrar de alguma coisa: só conseguiu resgatar uma frase, dita por uma voz masculina e aguda, que agora se repetia obstinadamente contra a vontade de Gago dentro da cabeça dele:

 

“I died a week ago”.


Gago não fazia ideia de onde vinha a frase, nem por que ela se repetia com tanto empenho, sem parar, doentiamente.


“I died a week ago”, repetia o homem de voz aguda.


“I died a week ago”.


“I died a week ago”, vinha a frase, uma por cima da outra, picando a consciência de Gago feito enxame de mosquitos da dengue no verão do Rio de Janeiro.


– Me-me-meeu carro tá bem? – gaguejou outra vez, nervoso como não gostaria de estar. A frase repetida na mente o empurrava brutalmente contra a brecha que o separava da loucura.


– Tá, cara – Japa resmungou, com a testa colada no vidro morno e alourado.


– Ninguém roubou nada – Preto completou, paciente com o namorado.


– Deveriam ter roubado – Japa se virou de novo para Gago, cruzando os braços e apoiando as costas na porta: – De que outra forma você vai aprender que a sorte nem sempre vai estar do seu lado?


“I died a week ago”.


Gago reprimiu Japa com uma carranca:


– Tá ma-ma-maluco, Japa? Quem é vo-você pra me dizer co-co-como viver? Se eu tivesse te cha-chaaamado, tu teria ido!


– É verdade – Japa concordou: – Eu só não daria perda total e deixaria meu carro aberto. Não sairia pra beber por raiva, pra começo de conversa, porque eu bebo pra comemorar! Não daria uma ligada pros meus amigos fazendo drama e desapareceria como se estivesse implorando atenção pro mundo! Não largaria meu namorado em casa, na merda, pra encher a cara e dirigir feito maluco esperando alguma coisa acontecer, quando a única coisa que precisaria mudar fosse eu, Gago!


“I died a week ago”.


– Japa… – Preto, mais uma vez, pediu sem dizer para que Japa segurasse a onda.


– Que-que coisa é essa de “Japa”, “Japa”? – Gago satirizou, imitando a voz de Preto como uma voz aguda e irritante, o oposto da voz grave e impostada do garoto.


– Só acho que seria melhor a gente respirar antes de transformar sua ressaca numa briga nova. Não quero brigar, tô de saco cheio disso. Bora baixar a bola?


– Não vô aturar o Ja-ja-jaapa me atacando – Gago esqueceu da dor de cabeça: o sangue fervente inchou tanto as artérias da testa dele que o rosto branco ficou vermelho.


Eu que não aguento mais aturar você – Japa apontou para Gago e direcionou para Preto: – Não tá vendo que ele parece um bebezão?


“I died a week ago”.


– Japa! – Preto repreendeu: – Tu não tá ajudando.


– Mais do que já ajudei? Peguei esse cara nos ombros, todo mijado!


– Quantas ve-vezes não peguei você vomitado em cho-cho-chopada de universidade?


– Você deixou um carro de 100 mil reais escancarado no meio do nada! E você tava sozinho, Gago! Inconsciente! Sem ninguém do teu lado! Ou tô errado? Ou tinha alguém do teu lado e você tá com medo de falar a verdade na frente do Preto?


“I died a week ago”.


– VAI SE FODER, JAPA – Gago levantou de súbito, gritando.


– Discutir agora não vai resolver nada! Por favor, vamos dar uma pausa de cinco minutos pra respirar –


“I died a week ago”.


– Re-respirar é o caralho, fica quieto, Pre-pretinho. Isso só tá acontecendo por su-su-sua causa – Gago bradou. Preto arregalou os olhos, surpreso e momentaneamente devastado.


– Você tá maluco?! – Japa estava perto de perder as estribeiras: – É você quem tá mandando as pessoas irem se foder, Gago! Você tá preocupando todo mundo à toa! Se olha no espelho!


Japa não sabia que Gago não se olhava mais no espelho, e isso era parte de um problema bem mais sério.


“I died a week ago”.


Em vez de responder; em vez de continuar tentando expressar como se sentia vulnerável e solitário, ou como não conseguia deixar de ser interrompido pela gagueira – especialmente com o melhor amigo e o namorado o encurralando desse jeito –, Gago virou nos próprios pés e chispou para a cozinha.


“I died a week ago”.


– Ele vai beber, Japa. Essa briga tem que acabar – Preto, também sem dizer, estava implorando para que Japa pedisse desculpas e fizesse as pazes com Gago.


– Gago é adulto, Preto – Japa murmurou, catando o chaveiro do carro de cima do aparador entre o sofá e a poltrona aveludados.


– Não posso te pedir pra ficar – Preto disse, interrompendo a rota de Japa com o próprio corpo: – Mas as coisas seriam mais fáceis de resolver se você ficasse e a gente pudesse chegar num estado de paz, não acha?


Japa suspirou alto e pensou. Podia ficar, claro, mas por Preto. Só não sentia que era a coisa certa a fazer. No espírito da nova amizade pontilhada por infinitas possibilidades, Japa quis ser transparente – então segurou Preto pelos ombros para dizer a verdade:


– Tô de saco cheio do Gago e não acredito que você também não esteja, e não me vem com essa de você não ter pra onde ir: você tem a mim, meu apartamento vazio e solitário, doido por companhia, doido por alguém que lave, limpe e cozinhe. Alguém exatamente como você. Vem comigo, Preto. Deixa o Gago beber sozinho. Deixa ele largar o carro na rua, não foi ele quem comprou mesmo!
Preto e Japa se encararam por um tempão, conversando por telepatia:


“Não posso fazer isso com o Gago, Japa.”


“Ele é quem não pode fazer isso com a gente.”


“Gago é minha responsabilidade.”


“Preto, Gago não vai mudar.”


“Você mudou… Por que não o Gago?”


“Eu quis mudar. Gago não quer.”


“Vou ficar, Japa. É meu papel como parceiro do Gago.”


E depois do silêncio tão preenchido por olhares descritivos, Japa preferiu registrar em voz alta:


– Vou pra casa, Preto. Se você mudar de ideia, me liga. Venho te buscar a qualquer hora, valeu? Você não tá sozinho, mas vai ficar se continuar deixando o Gago te jogar pra escanteio.


Preto compreendeu, balançando a cabeça positivamente.


“I died a week ago”.


– Além de ser um o-otário, v-vai roubar meu namo-moorado? Cansou de boce-ceta? – Gago proferiu com amargura, segurando um copo de vodca numa mão e a garrafa em outra.


– Para, Gago… – Preto soprou baixo, exausto.


“I died a week ago”.


– Fica q-quieto, Pretinho – Gago repetiu a ordem, ignorando a importância do pedido do namorado só para continuar alfinetando Japa: – Vai dizer o que pro-pro meu namorado de-de-depois? Que v-você vai s-s-salvá-lo de mim? Que não faço na-na-naaada por ele? Já viu essa casa?! Esse videogame que vo-vo-vocês estavam jogando tão a-a-apaixonadamente? Ele tem tu-tudo que precisa, e o Pre-pretinho não precisa de v-você.


Japa deu uma risadinha sarcástica, baixinha, e disse só para Preto ouvir:


– Não responder e não dar na cara dele é ajudar em alguma coisa – e Japa seguiu para a porta.


“I died a week ago”.


– Va-vai correr, né? É tua cara fu-fu-fuugir dos problemas – Gago improperou, dando um gole direto da garrafa em vez de usar o copo.


– Aguenta essa ressaca feito homem, Gaguinho: não beba. Pelo Preto – Japa pediu, tentando recuperar na voz algum carinho ou respeito pelo melhor amigo, que no momento não passava de um total idiota, do tipo que Japa costumava se meter em briga nas baladas pelos motivos mais estúpidos: de um pisão no pé, a dar em cima de uma mulher compromissada sem saber disso.


Japa fechou a porta atrás de si, sem dar chance de Gago retrucar.


Tudo que sobrou na sala foi o bêbado e o preto.


Foi Preto quem falou primeiro:


– Você não precisava discutir com o Japa, Gago. Ele é teu amigo, tá aqui pra te ajudar a –


– Xiu. P-por favor – Gago mandou, passando por Preto com a garrafa na boca feito mamadeira.


“I died a week ago”.


– Gago… – Preto respirou e tomou coragem para falar: – Você não pode me tratar dessa forma, me mandando calar a boca, me humilhando na frente dos teus amigos –


– É vo-você quem me hu-huu-humilha – Gago embargou o namorado para se defender: – Me alienou da minha família, dominou minha ca-ca-caasa, quer controlar minha vi-ída, e de-de-deve estar fo-fo-fofocando pros m-meus amigos o que vo-você acha errado em m-mim! Como é que sou eu que-quem humilha v-você?!


Preto não estava surpreso: era assim que as brigas começavam. Preto tentava apaziguar uma ideia ou ação precipitada de Gago, Gago respondia que era Preto quem não tinha noção das coisas, e começava a chuva de ordens e desrespeitos que transformavam os dois em bombas-relógio termonucleares.


– Não vou alimentar essa discussão – Preto deu as costas para Gago com intenção de se esconder no quarto com um beck e fones de ouvido.


Gago não deixou.


Você não vai me dar a porra das costas, sacou?! – Gago rosnou, furioso, sem gaguejar, arremessando o copo na parede e apertando o ombro de Preto com intuito de machucar.


Preto gemeu mais alto que o som dos estilhaços contra a parede enquanto era virado de volta contra a própria vontade, a modo de encarar Gago de frente.


“I died a week ago”.


– Me solta! – Preto empurrou Gago para trás com uma força que não sabia que tinha, talvez fruto da cólera sentida por quem sofre uma traição tão baixa quanto ser abusado por alguém claramente mais forte, mais resistente e, pior: tão próximo.


O efeito dominó da agressão física, quando começa, é imprevisível: Gago não só caiu por cima da televisão gigantesca e quicou no rack com a TV amassada despencando por cima dele com faíscas e fumaça, como estourou a garrafa de vodca no impacto contra o chão, acabando por segurar apenas o pescoço alongado de vidro terminado em espinhos afiados, brilhantes, e lavados de sangue e etanol.


Preto nunca sentiu um medo tão grande – nem quando ficou debaixo de possíveis naves espaciais durante a trip de ecstasy numa estrada soturna. Dessa vez, com o namorado vermelho não só de ódio, mas de sangue, empunhando o que poderia ser uma arma cortante letal, Preto temeu pela vida de merda que tinha. Não pensou duas vezes e correu porta afora, espavorido, usando o cair da noite como a capa de invisibilidade que por muitos anos o magoou mais do que o protegeu ao mesclá-lo com o negrume crescente no horizonte.


Pela segunda vez no dia, Gago não sabia quem ele era – nem que ele era alguma coisa.


Pior do que um corpo vazio, tornara-se agora um corpo vazio preenchido com repugnância, fastio, e uma gana bárbara, brutal, que o fez levantar feito um leão faminto e correr atrás de Preto para parti-lo ao meio – com os dentes.


Gago nem se deu conta de que empunhava o caco que sobrou da garrafa de vidro feito uma adaga, espalhando sangue no chão branco da casa, pelas escadas que o levaram ao primeiro piso, e pelas calçadas cimentadas de onde ele gritava:


– PRETOOO! PRETOOOOOO! – descalço e selvagem.


Mas Preto tinha desaparecido…


Gago só sabia de uma coisa: Preto não podia se esconder para sempre.


“I died a week ago”.