APELIDOS VULGARES, VOL. 1

- CAPÍTULO 6 -

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A silhueta de Japa, sentado ao pé da cama contra cortinas translúcidas, acesas pelo sol e sacudindo ao vento, teria prolongado a sensação de que Preto ainda estava sonhando, se não fosse pelo óbvio incômodo transformando o camafeu de olhos puxados, na carranca preocupada de um leão-de-chácara.


— Não quis te acordar — Japa falou quando Preto abriu os olhos.


— Não acordou — Preto mentiu, pois sim, provavelmente foi a olhada analítica de Japa queimando a cabeça de Preto feito raio laser, o que despertou Preto do sono superficial e difícil de alcançar depois de tantas lágrimas. Ainda assim, era melhor acordar com a preocupação de Japa iluminada pela manhã, do que acordar num quarto escuro sem o namorado bêbado.


— Não tô conseguindo acreditar no que o Gago fez… Fiquei te olhando dormir pra me lembrar de não amassar a cara dele contra a parede, porque é isso que o Gago quer, não é? Que a gente não cresça? Não mude? Que ninguém deixe a órbita destrutiva dele para trás?


Preto se apoiou nos braços e puxou o corpo, encostando na parede para sentar e dizer:


— Mais do que ninguém, entendo a raiva que você tá sentindo, mas não quero alimentar essa coisa transformando o Gago num vilão. Tamo perto demais dos acontecimentos, sabe? A gente tem que dar uns passos para trás e só… respirar.


Preto assistiu a consternação de Japa virar compaixão — se por Gago ou Preto, Preto não sabia. Mas fez questão de pontuar:


— Japa, é normal sentir essa confusão de sentimentos pelo que aconteceu. Não se julgue tanto. Nem a ele.


— Sinto que eu é quem deveria dizer isso para você — Japa sorriu com timidez.


— Você tá fazendo mais que o suficiente, Japa. Obrigado.
Japa apenas concordou com a cabeça antes de mudar o assunto:


— Quer comer o quê de café da manhã?


Preto levantou da cama e se espreguiçou, pensando no que responder. Decidiu ser honesto:


— Não quero jogar seu esforço fora, mas não acho que comer vai me fazer sentir melhor — e depois de passar por debaixo da cortina e apoiar o corpo no quadro da janela para sentir o vento vindo de fora, de frente para a amendoeira centenária que Preto quase podia tocar do sexto andar, adicionou: — Tô lutando pra me sentir neutro, no mínimo. Sinto que a ficha ainda não caiu. Como se ainda não tivesse visto a seriedade dessa situação e de como foi meu… marido, minha única família, quem tentou me ferir ontem. Tô tentando me antecipar ao estrago que isso vai causar na minha mente para me convencer de que não sou odiável. Que nada do que houve foi minha culpa, não interessa a justificativa.


Japa foi se apoiar perto de Preto, na outra ponta da janela, debaixo da cortina e de cara para a ventania:


— Na pior hipótese, a gente tem estoque infinito de Bolsonaro amarelo pra fazer você se sentir melhor.


Preto sorriu com honestidade.


— Acho que o ecstasy já fez o que pôde por mim, Japa. A responsabilidade é minha agora.


— É nossa — Japa corrigiu. Preto entendeu que ambos estavam na mesma jornada, e pela primeira vez em décadas, podia contar com alguém para dividir o fardo da existência a nível atômico.


— Obrigado, Japa. Se soubesse que você era o cara certo em vez do Gago, teria me jogado em cima de você no carnaval em que conheci os dois.


— Não tem de quê — e Japa sorriu com os olhos.

*

"Como Japa se sente sozinho nesse apartamento incrível?!" foi o que Preto se perguntou por reflexo, mesmo sabendo o quanto era possível se sentir solitário cercado por televisões gigantes, videogames de última geração, cozinhas super equipadas, ou quantidades infinitas de maconha.


Preto até pensou que se as coisas (e a casa) onde viveu até a noite anterior fossem dele, não do namorado, talvez não teria se sentido à parte daquilo tudo pelos anos que amarguraram o relacionamento dele com Gago: porque jamais correria o risco de perdê-las repentinamente ou ser enxotado.


Foi exatamente o que aconteceu, e após uma briga idiota, Preto possuía menos do que teve quando aceitou viver com Gago.


Talvez a solidão e preocupação constantes que Preto sentia vinham de um lugar só: desconfiança. Medo de ser traído. Trocado. Medo de ficar confirmado, como a vida em sociedade sempre apontou sem propriamente dizer, que ele era descartável.


— Que cara é essa? — Japa quis saber, separando quatro fatias de pão sobre o balcão de pedra dividindo a cozinha da sala.


— Tava notando como seu apartamento é bonito.


— Mas ele não tem nada — Japa apontou para as paredes vazias com a faca de pão.


— Por isso mesmo — Preto reafirmou e sentou no banco elevado de madeira de frente para o balcão: — Posso te ajudar com esse pão? Quero ter a chance de fazer algo por você, pra variar…


— Pode ajudar se sentindo em casa — Japa disse, espalhando manteiga nas abas de pão de forma: — Vou descer no mercado pra catar verduras pro almoço. Não tenho nada aqui que você coma.


— Ah, Japa, não se preocupa com isso. Te disse que comer é a última coisa na minha cabeça, e até eu sentir fome, posso ir no mercado sozinho e comprar — Preto parou de falar: se deu conta que não podia sair sozinho para ir ao mercado porque não tinha dinheiro. Não tinha roupas. Não tinha nem o próprio diário. Para existir, nada disso era necessário, mas ao lembrar de como era dependente de Gago para ter o mínimo para viver, a tristeza trombou nele com impacto de cometa; tão forte, que chegou perto de empurrá-lo consensualmente pela janela do apartamento.
 

— Essa é a cara que me preocupa — Japa largou a faca para dizer, demonstrando atenção indivisível ao novo amigo. Preto deu de ombros, esfregou a cara com as mãos e tentou sorrir:


— Os próximos dias serão assim, transitando entre o que minha razão me convence a não manifestar, e o que minhas emoções querem que eu sinta até explodir minha cabeça.


— Lembra do que você disse pra mim na cama? “Tenta não se julgar”. É normal se sentir assim, né não?


Preto concordou, amarrando o choro na garganta. Não queria abusar da paciência e disposição do Japa, a pessoa inesperada que sempre se mostrou fiel ao Gago, e que agora se esforçava para ser fiel ao Preto, até por cima dos caprichos do melhor amigo de infância.


O engasgo rouco da cafeteira roubou a atenção dos dois.
 

— Deixa que eu sirvo — Preto se jogou em ação para tirar a cabeça das nuvens (ou melhor, dos infernos), e o telefone de Japa tocou em seguida:
 

— Merda, tenho que atender — Japa resmungou: — Se incomoda?
 

— De forma alguma — Preto disse, servindo café nas canecas brancas.
 

— Qual a boa, Chincheiro? — Japa atendeu de bom humor, dando a volta no balcão para pegar uma caneca de Preto e se dirigir ao quarto para continuar a ligação.


Com a caneca nos lábios, Preto descansou os cotovelos no balcão e passou os olhos por toda a sala à frente, onde tacos no piso, cobertos pelo extenso tapete redondo e bege, somavam para o estilo setentista norte-americano da mesa de centro com tampo claro entre o sofá de três lugares e a poltrona independente — todos com pés altos do tipo palito.


Japa não tinha televisão ou obras de arte. O que tinha eram plantas arbustivas se enroscando em árvores esguias pelos cantos das paredes e janelas, com espécies se esparramando pelo chão, e outras tocando o teto com as pontas das folhas.


Não havia flores — verde era a cor predominante: verde das plantas, bege das paredes, e café-com-leite do chão.


A casa inteira seguia estilo similar, sem parecer datada ou decorada, e a impressão que os ambientes passavam a Preto era de que Japa foi encontrando uma peça aqui, outra ali, e não se deu o trabalho de renovar a cor das paredes desde que o prédio foi erguido. Talvez tivesse enchido o espaço com plantas para não se sentir solitário, já que Japa demonstrou enxergar vida e personalidade nos vegetais quando comentou se sentir mal por deixá-las morrerem ao fugir do vácuo da casa: um apartamento simples, iluminado, e tão sincero, que Preto conseguia ver os olhinhos apertados de Japa sorrindo de cada reflexo de sol nas superfícies.


Foi inevitável não pensar no quê uma pessoa como Japa queria com Preto — porque ele queria alguma coisa; um valor que Preto ainda não podia enxergar sobre si próprio. O que mais justificaria tamanho esforço para ficar próximo, já que Japa era heterossexual, definitivamente não estava apaixonado por Preto, e que mesmo insatisfeito com família e amigos, ainda tinha família e amigos por perto?


Se perguntando essas coisas, ficou difícil não questionar logo depois:


"Em que momento Japa vai enjoar de mim também?"


— Anima de ir pruma rave? — Japa perguntou quando voltou à sala, iluminado pelo sol, entrando na visão de Preto feito um fantasma radiante.


— Rave?


— É, festa de música eletrônica — Japa se serviu de mais uma caneca de café: — Querem que eu entregue umas paradas por lá.


— Eu sei o que é rave… Quero saber se tá me convidando pra ser teu cúmplice. Eu sou preto, Japa. Se a polícia pegar a gente, na melhor hipótese vou preso. Na hipótese mais comum, devo ser assassinado por um "homem de bem" vestindo a farda da "ordem e progresso"...


— Não vamos ser presos, Preto.


— Porque ninguém para você, que é branco, bonito, e com cara de rico… Se me virem do teu lado vão parar o carro com certeza. Já aconteceu com o Gago, e até ele, depois de mais de vinte anos dirigindo pelo Rio de Janeiro, admitiu que "isso nu-nunca aconteceu co-comigo" — Preto imitou o Gago para apontar uma das verdades mais antigas e mortais do mundo: a predileção caucasiana.


— Você tem razão — Japa disse, pegando na faca para terminar os pães: — Mas só consegui prestar atenção em duas coisas no que tu disse: a primeira foi sua imitação perfeita do Gaguinho. Meus parabéns.


— Obrigado — Preto agradeceu, sorrindo para Japa, temporariamente esquecido de como a situação precária enquanto solteiro, semi sem-teto e humilhado, era preocupante.


— Já a segunda coisa é: então você me acha bonito?


Preto riu, pensando ser uma piada, mas Japa manteve o olhar sério, com um sorriso apertado dentro da boca, esperando resposta.


— Tá falando sério, Japa?


— Claro que tô. E se faz você se sentir menos tímido e mais pressionado a responder afirmativamente, acho você um cara bonito também: por dentro e por fora; profundo, observador, e muito bem-apessoado.


— Por que você quer saber? — Preto ignorou os elogios.
 

— Ego, ué. Um elogio de você vale um bocado pro meu ego.
 

— Nesse caso, se faz você se sentir bem e não odiar minha homossexualidade — Preto começou: — acho não só você, mas todos os amigos do Gago, muito bonitos. Como se ter crescido num bairro nobre naturalmente selecionasse vocês para serem gostosos e "bem-apessoados" de um jeito que jamais vi em quantidade enquanto morava em Sepetiba. Satisfeito?


Com um sorriso zoeiro do tamanho da cozinha, Japa insistiu na pergunta só para deixar Preto sem jeito:


— Então você me acha gostoso também?


— Japa, como isso melhora nosso relacionamento? Como isso faz me sentir em casa se você é hétero, eu sou gay, e isso pode te confundir sobre como me sinto em relação a você? — Preto perguntou, contendo um monte de gargalhadas.


— Isso não vai mudar nada, não vou confundir nada. Isso faz me sentir melhor sobre nosso relacionamento. Se você me achasse feio, aí a gente brigaria…


— Tá respondido, então? Podemos falar da festa? — Preto indagou, coçando a testa.


— Posso só ouvir uma única vez que você me acha gos-to-so? — Japa gargalhou.


— Você é gos-to-so, valeu? Tá feliz? — Preto se rendeu, rindo. Esse era o Japa que Preto conhecia: narcisista e egocêntrico. No passado recente, Preto só entendeu esses traços através de uma interpretação superficial, egocêntrica por si própria, enquanto Japa se tornava vilão ao roubar a atenção do namorado de Preto, anos-luz distante da imagem do garoto incrível que Preto via agora; o mesmo que dava razões para Gago querer ter Japa por perto o tempo todo.


Japa, o garoto crescido fechando um pão no outro e dando uma mordida seca, era solitário e carente, e Preto se identificava facilmente com isso.


— A rave é num sítio em Vargem Grande, aquela área verde, meio rural, atrás do bairro em que você morava — Japa falou de boca cheia, tomando um gole de café com pão ainda na boca.


— Cruzando a Avenida das Américas — Preto identificou, achando curioso como Japa e Gago tinham o mesmo hábito de misturar o café na boca com a comida.


— Cruzando as Américas, isso aí. Policiamento é zero, terra de ninguém. De milícias, vez ou outra, mas o ponto é que o sítio é enorme, a festa tá rolando há dois dias, e não deve acabar até amanhã à noite.


— Sério? Queria ter a disposição dessa galera…


— Se você tomasse metade das coisas que vendo, você teria muito mais disposição que eles.


— E o que você vende?


Japa ficou sério e virou as costas para levar a faca até a pia do outro lado da cozinha, desconversando:


— Melhor você não saber.


— Japa, você vende crack?


— O quê?! — Japa riu de novo, vindo sentar no banco alto ao lado de Preto: — Claro que não. É que quanto menos você souber, menos cúmplice você será. Não é essa a lógica da polícia?


— Isso só funciona em filmes, Japa. Mesmo que eu não saiba de nada, vou tomar a culpa por qualquer coisa porque as autoridades acham que podem ver o problema na minha pele. Não faz diferença eu saber ou não.


— Ok. Vendo ecstasy, maconha, LSD, cogumelos, MD e quêi, que são as drogas que mais saem e que me permitem pagar quatro mil de aluguel, manter o carro, e ter o suficiente para guardar pra alguma emergência ou pra viagem maneira que nunca faço. Às vezes vendo cocaína, mas só quando a parada é pura e chega pra mim através de amigos.


— Você tem tudo isso aqui?! — Preto estava perplexo, num bom e sinistro sentido. Japa confirmou com um aceno de cabeça e outra mordidona. Preto nunca tinha visto um mercado de drogas tão branco.


— Se policiamento for preocupação, garanto que a gente não vai ser parado. Se formos parados, faço o que estiver no meu poder pra te isentar de qualquer culpa. Mas não seremos parados. É como se o Deus das Drogas me protegesse, Pretinho — Japa interrompeu a si próprio por ter desrespeitado o pedido de Preto, de não chamá-lo no diminutivo, e pediu: — Desculpa. É difícil não tratar pessoas que gosto com excesso de carinho — e Japa sorriu por um segundo, antes de enfiar o resto do pão na boca para sufocar o desapontamento.


Preto encostou a mão no ombro do amigo e se condicionou a pensar que Japa não era Gago.


Japa não era ninguém além de Japa.


— Pode me chamar como quiser, "Japinha" — Preto brincou.


— Ah, é? Espero que não seja só porque você me acha gos-to-so — Japa provocou, pegando o segundo sanduíche da bancada.


— Acredite: é só porque te acho gos-to-so.


Eles gargalharam de novo, e no silêncio seguinte, enquanto Japa se distraia com o sanduíche e uma checada furtiva no celular, Preto refletiu sobre como eles tinham… química.


"Não num sentido sexual", Preto fez questão de pontuar na própria cabeça, "Mas num sentido… cósmico".


Se Japa pudesse mesmo ler os pensamentos de Preto, ele teria concordado.

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ENRIQUE 'SEM H' COIMBRA | 2021

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