Combatendo ansiedade... em Londres! | Blog do Enrique

Combatendo ansiedade... em Londres!

Diminuir preocupação com dinheiro num país diferente exige inocência.


Dá pra sentir nódulos E-NOR-MES se você passar a mão nos meus ombros. Não lembro a última vez que me senti tão tenso — e olha que as coisas não estavam fáceis pra mim no Brasil.

Quando saí de Vargem Grande pra economizar no aluguel, deixei de ter casa outra vez, e passei a trocar serviços na limpeza e recepção do hostel Casa do Mundo por um cantinho pra dormir. Parece triste mas foi maneiro pra caralho: gente nova todo dia, papos fodas o tempo todo, e companhias pra tudo.


Mas nem tudo são flores...

O hostel não tinha espaço (nem internet) pra eu trabalhar no computador, então mesmo após 8 horas de permuta, eu saía pra sentar na praça de alimentação do shopping Downtown e ficava lá até me pedirem pra sair.


Pra economizar, eu comia até explodir no café-da-manhã do hostel e passava o dia sem comer mais nada. Isso me permitiu investir uns R$ 500 em documentos que eu precisava tirar. Quando mantive R$ 2.000 na conta, peguei um avião pra Londres.


Foi um passo maior que minha perna.

Mas eu dei.

Como grandes oportunidades estão do outro lado do medo, vim pro Reino Unido com meus terrores numa mochila minimalista — mas vim!


Apesar desse ato de coragem, chegar num país novo sem dinheiro me acordou pra realidade de que antes mesmo de pisar aqui, eu já estava correndo contra o tempo. Se sentir acuado aciona o instinto de lutar ou fugir — a tal da ansiedade.

Tentando me prevenir de não ter dinheiro pra comer, a ansiedade me fez correr atrás de clientes.


Escrevendo, criando gráficos e gerenciando redes sociais para outras pessoas, tenho mais trabalho do que 24 horas diárias permitem — mas ainda não o suficiente pra não me preocupar em descolar a renda do mês.


Com mais trabalho, sobra menos tempo pra me dedicar ao que realmente curto fazer: escrever livros, postar vídeos no Enrique Sem H, e produzir filmes pro Enrique Nômade.


E daí passo a me perguntar: viver é mesmo só isso?

Não diga que não avisaram...

Não medito há meses. Trabalho de segunda a segunda. O dia começa e termina e eu tô sentado, vidrado, insatisfeito e exausto, sonhando com o dia em que as coisas que eu amo vão me sustentar sozinhas.


Quando vem o desespero dos meus prazos, tudo parece urgente — mas é aí que me obrigar a dar uma volta no parque pra praticar minha inocência consegue equilibrar minha ansiedade generalizada.

Mantenha viva sua criança interior.

Quando coloco os pés na rua, ainda estou com uma quantidade absurda de afazeres na cabeça, mas aos poucos consigo relaxar e apreciar o fato de que ainda estou vivo, em outro país, com pessoas que adoro bem pertinho de mim — cenário melhor do que enfrentei um tempo atrás.


Consigo me emocionar com a proximidade dos esquilos, dos pombos, patos e corvos; com o verde da grama no caminho; com o pôr do sol na ponte; e com o direito de não precisar pensar em nada além de só existir.

É assim que consigo combater a ansiedade: me forçando a ficar longe das obrigações por 50 minutinhos diários — tempo suficiente pra dar uma voltinha na rua construindo uma empolgação infantil pelo presente de estar presente!


Quando volto pra casa — que também é meu escritório — fica fácil encarar as tarefas novamente, porque consigo sentir prazer e gratidão no processo de criação da vida que desejo viver.


Nada é em vão.

Pombos decepcionados no Battersea Park.

Ao brincar de ser otimista desse jeito inocente, deixo de me sentir uma vítima das consequências e fico consciente de que nenhum estado da vida é permanente — o que tenho vivido são só alguns degraus desconfortáveis numa escadaria sem fim.


Se a cada dia de demandas eu mantiver a calma, fizer o que tenho que fazer no tempo que as coisas levam para serem feitas, e tirar um tempinho pra respirar com atenção plena ao que já conquistei, é possível que meus próximos degraus sejam muito melhores do que espero.


Até lá, para amenizar sintomas das preocupações ansiosas na minha mente, dar voltinhas num parque britânico tem sido melhor pro meu espírito que tomar uma cartela de Rivotril entre quatro paredes.


(Mas tomar uns comprimidos e passear por aí não seria má ideia...) ■

P.S.:


Tô escrevendo esse monte de desgraças e vitórias como um marco histórico (na minha história 😂) de que já estive desse jeito, passando por essas coisas.


Num futuro breve, ou as coisas estarão piores, ou as coisas estarão melhores, ou estarão uma coisa impensada, mas definitivamente não estarão as mesmas.


Quero lembrar que já estive desse jeito, passando por essas coisas, pra me lembrar de ser afetuoso com meu passado, e medir o quanto me transformei desde lá (desde “aqui”, no caso, no passado, enquanto escrevo isto 🕜😂⏳😂).


Eu sendo testemunha de mim.

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ENRIQUE 'SEM H' COIMBRA | 2020