O problema é minha timidez (e a vida adulta)

O problema é minha timidez

Cheguei num marco da vida adulta: passei a ter medo de me expor ao ridículo — e isso tá custando caro pra criatividade.



É por isso que tá sendo a segunda semana seguida que eu deixei de postar um vídeo pronto no canal: fiquei com medo de me expor ao ridículo. De não estar 100% no meu critério de qualidade.


Aí precisei de tempo pra pensar...


...quase tudo que tenho feito sob o apelido Enrique Sem H tem me feito sentir totalmente exposto ao ridículo, já que lancei muitos vídeos no passado, tive diferentes critérios que hoje não atendem meus atuais, e sinto vergonha por isso.


Sou uma pessoa de verdade se expondo pra caramba na internet.


Os problemas são minha timidez e introspecção — quanto mais comunicativo e aberto sobre minhas fragilidades me tornei pras pessoas, mais tímido e retraído fiquei no dia a dia. Já não falo tudo que penso. Já não acho as pessoas tão misteriosas. Já não me acho tão interessante ou útil.


Há menos romantização sobre a vida.

Pouco mais de dois anos atrás, eu ficava bêbado numa festa e:


  • falava com todo mundo, mesmo sem conhecer;

  • agia feito ponte para grupos diferentes de amigos se conectarem;

  • bancava o palhaço pras pessoas baixarem a guarda e zoarem;

  • elogiava cada ser humano que chamava minha atenção pelo prazer de deixar a pessoa sabendo;

  • fazia um monte de amigos;

  • e sóbrio no dia seguinte, não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha pelo meu comportamento bêbado na noite anterior.


Eu me responsabilizava pra ser a versão mais sociável de mim só pra pertencer (e integrar pessoas) na sociedade e cultura dos lugares que frequentava — e isso me permitia parecer ridículo sem me sentir ridículo.


Ser ridículo dessa forma estendia permissão (de mim mesmo) pra eu ser ridículo em outras áreas da vida social também, como na internet. Ou seja, só me permitia ser ridículo porque existia um ganho afetivo nisso — pertencimento.



Só que de um ano pra cá me tornei uma pessoa diferente: solitário, de um jeito doloroso.


E a solidão me apresentou ao Real Silêncio¹: nele aprendi que a gente deve falar menos o que vem à cabeça — e falar só após boas análises do que pensamos, contextualizamos, conceituamos e tentamos expressar pensando no outro também.


Esse tipo de filtro contra "soar ridículo" é bom quando em equilíbrio com a verbosidade², mas perdi o controle pra baixa autoestima: automaticamente quase tudo que já fui, ou o que estava fazendo pra público, pareceu mais um “blá, blá, blá” desnecessário pro planeta.


Isso me impediu de continuar sendo tão animado ou transparente na frente das pessoas — por isso parei de ir aos encontros de amigos e fui me isolando aos poucos; me tornei mais rígido sobre como me comporto; e mais sensível pra calcular que tipo de registro audiovisual quero ter de mim pela internet.


Excesso de pensamentos autodepreciativos, eu sei, super overthinking.



Mas essa incongruência de sentimentos poderia ser sinal do meu corpo me dizendo alguma coisa. O que seria essa coisa? Sinal contra o quê?


A resposta vem fácil:


Vergonha de estar perto dos 30 anos tentando pertencer em alguma lacuna.

O fato é que não pertenço a nada, e era isso que meu corpo queria dizer:


Você mudou — então mude!

Taí o que tem sido amadurecer pra mim.

O resto é mole. Quase. ■


¹: Real Silêncio é um jeito que encontrei de chamar o silêncio da minha casa de solteiro em Vargem Grande, no Rio de Janeiro, depois que morei sozinho (sem família nem namorados) em 2019. Foi o silêncio mais silencioso que já experimentei — e extremamente volátil pra se adaptar às minhas emoções: em horas apaixonante, noutras era de fazer chorar, e em outras era só silêncio. Real silêncio.


²: Qualidade do que é verboso, que fala demais ou usa muitas palavras pra se expressar.

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ENRIQUE 'SEM H' COIMBRA | 2020